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“Sem solução, quem matou terá carta branca”, diz pai de Marielle

em Especial
quinta-feira, 14 de junho de 2018
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“Sem solução, quem matou terá carta branca”, diz pai de Marielle

Os assassinatos da vereadora Marielle Franco (PSOL) e do motorista Anderson Gomes, em 14 de março, completaram ontem (14) três meses, e nenhum suspeito foi preso ou teve o nome oficialmente divulgado pela Polícia Civil, que investiga o caso em sigilo. Nesse período, Antônio Francisco Silva, pai da vereadora, conta que informações sobre o crime chegam a ele apenas pela imprensa, e que o silêncio das autoridades angustia                                                                         

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Marielle participou de uma roda de conversa horas antes de ser assassinada.

Vinícius Lisboa/Agência Brasil

Sem solucao 1 temproario“A gente quer o sigilo, mas a gente exige que a resposta nos seja dada”, disse o pai de Marielle. “Se os órgãos não derem respostas à sociedade, vão dar carta branca para as pessoas que fizeram e para as que mandaram fazer”. Nesses três meses, pai, mãe, irmã e viúva da vereadora estão constantemente em protestos e eventos públicos manifestando sua revolta e tristeza com o crime. O objetivo é impedir que a cobrança sobre as investigações diminua.

“É necessário participar desses atos, porque, em 90 dias, não temos ainda nenhuma resposta da elucidação desses casos. Ela foi calada e não sabemos por quem, quem mandou e por que fizeram isso”, disse Antônio Silva. O crime levou milhares de pessoas às ruas e gerou reação internacional, com manifestações como a do Escritório de Direitos Humanos da ONU, do Parlamento Europeu e até do papa Francisco. Para a Anistia Internacional, que acompanha o caso de perto, a imagem do Brasil também está em jogo. Assessora de direitos humanos da entidade, Renata Neder afirma que a comunidade internacional acompanha o caso com preocupação.

“Não apenas porque a Marielle era uma defensora de direitos humanos que trabalhava há anos, mas também porque ela foi a quinta vereadora mais votada na segunda maior cidade do país. Isso significa um nível de ruptura da institucionalidade e do Estado de Direito que é muito preocupante para outros países”. Na quarta-feira (13), a Anistia Internacional cobrou uma atuação mais ativa do Ministério Público no caso, inclusive com o destacamento de uma força-tarefa especializada.

Sem solucao 2 temproarioO procurador-geral de Justiça, Eduardo Gussem, recebeu representantes da organização e a família de Marielle e se comprometeu a dedicar todos os esforços ao caso. “Sabemos que, sem dúvida alguma, foi um crime politico”. A viúva de Marielle, Mônica Benício, disse confiar no trabalho da polícia e afirmou também que o sigilo é extremamente importante para a solução do caso. “Eu não quero qualquer resposta. Não quero um bode expiatório, não quero uma pessoa qualquer para ser responsabilizada. Eu quero que seja revelado quem matou, quem mandou matar e quais foram as motivações do crime. Essa satisfação o Estado Brasileiro deve ao mundo”.

Apesar do sigilo das investigações, informações noticiadas pela imprensa já trouxeram a público que a arma utilizada pode ter sido uma submetralhadora de uso restrito das forças de segurança, e que pode ter sido desviada do arsenal da própria Polícia Civil, que investiga o caso. O depoimento de uma testemunha ouvida pela Polícia Civil também teria apontado a participação do vereador Marcelo Siciliano (PHS), que negou o envolvimento e afirmou ser vítima de um factoide. O ex-policial militar Orlando Curicica também foi apontado pela testemunha e negou participação no crime.

O interventor federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto, criticou os vazamentos na quarta-feira (13), quando fez um balanço dos 100 dias da intervenção federal. Segundo ele, houve prejuízo à apuração. “Não estou dizendo que aquelas pessoas são responsáveis, mas todo mundo que estava no entorno e poderia estar sendo investigado, passou a tomar preocupação. Isso prejudica a confecção de provas”, disse. “Para acusar é preciso ter as provas muito bem fundamentadas. Estamos buscando as provas. No mais, nada a declarar. Não vou adiantar nada”.

Segundo Braga Netto, a investigação caminha bem, e o crime, apesar de complicado, está sendo muito bem investigado. “Antigamente acontecia um problema qualquer, e o delegado dava declaração, o comandante do batalhão, todo mundo dava declaração. Hoje, ninguém dá declaração, só na hora que sair o [resultado] oficial. Isso é uma mudança de postura e de procedimento”. O PSOL divulgou uma nota, em que o presidente do partido, Juliano Medeiros, cobrou uma resposta ao caso e a elucidação do crime. Para Medeiros, o assassinato é a expressão do ódio e da intolerância contra os defensores dos direitos humanos.

“O assassinato covarde de Marielle e Anderson revelou para o Brasil e o mundo a gravidade do momento que vivemos. O ódio, a intolerância, os preconceitos já não se expressam apenas na internet. Eles estão disseminados tomando a forma de ataques, agressões, intimidação e assassinatos. Marielle e Anderson foram vítimas de um crime político e isso precisa ser reafirmado sempre. Exigimos justiça e punição exemplar aos envolvidos neste crime hediondo”.

Viúva de Anderson Gomes ainda não conseguiu voltar para casa

O assassinato da vereadora Marielle Franco e de Anderson Gomes, há três meses, deixou Ágatha Reis, de 28 anos, viúva e com um filho de um ano e quatro meses. Casada com o motorista que levava Marielle para casa naquele dia, ela conta que tentou mudar sua rotina para atravessar o luto e ainda não conseguiu voltar para casa. “A vida nunca vai ser a mesma coisa. Eu mudei o local de trabalho para as coisas ficarem um pouco mais tranquilas e mudar um pouco a rotina. Ainda não consegui voltar para casa, mas pretendo”.Sem solucao 3 temproario
Ágatha mora com a mãe, que a ajuda a se organizar para cuidar do filho. No mês seguinte ao crime, ela já estava de volta ao trabalho, como servidora estadual. Sem informações sobre as investigações, que seguem sob sigilo, Ágatha conta que, às vezes, se angustia e tenta acompanhar o caso pela imprensa. “Eu fico com aquela sensação de que não teve muita coisa feita, mas sei também que é a expectativa de alguém que tem aquele sentimento pela pessoa que faleceu. Eu não tô na investigação, eu não sei o quanto caminhou”.
Ela acredita que a falta de uma resposta deve ser mais leve para ela do que para a família de Marielle, porque a vereadora era o alvo do assassinato. “Sei que o alvo não era o Anderson, sei que o crime não era dirigido a ele. Acredito que para a família da Marielle fica uma carga um pouco mais pesada, porque eles precisam saber de um motivo. E o motivo do [assassinato do] Anderson eu já sei: ele estava com ela”, disse.
O crime levou milhares de pessoas às ruas e gerou reação internacional, com manifestações como a do Escritório de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, do Parlamento Europeu e até do papa Francisco, que cobram uma solução. Para a Anistia Internacional, que acompanha o caso de perto, a imagem do Brasil também está em jogo. Já o interventor federal na Segurança Pública do Rio de Janeiro, general Walter Braga Netto, critica os vazamentos de informação sobre as investigações. Segundo ele, houve prejuízo à apuração.