Programa de reciclagem disponibiliza envio de produtos pelos Correios de forma gratuita

A TerraCycle, líder global em soluções ambientais de resíduos de alta complexidade, mantém quase uma dezena de programas de reciclagem no Brasil

A empresa firma parcerias com companhias diversas, organizações sociais e também envolve o consumidor comum, que pode enviar itens para reciclagem pelos Correios, sem nenhum custo.

Nos programas com envio via Correios, os consumidores podem se cadastrar no site da empresa, de forma individual ou em grupo, para que a cada remessa sejam computados pontos, que depois serão convertidos em créditos para os beneficiados que eles indicarem, dentre entidades sem fins lucrativos e escolas públicas.

Para conhecer um pouco mais desse universo, o Jornal Empresas & Negócios conversou com Renata Ross, gestora de Marketing e Relacionamento da empresa.

Jornal Empresas & Negócios: De onde surgiu a ideia da fundação da TerraCycle? Qual país de origem?
Renata Ross: A TerraCycle foi fundada em 2001 pelo estudante da universidade de Princeton, Tom Szaky, quando tinha apenas 19 anos de idade. Sua missão era Eliminar a Ideia de Lixo ® e essa decisão pautou os negócios da empresa desde então.

JEN: Quando chegou ao Brasil?
Renata: A TerraCycle chegou ao Brasil em 2009 e foi a primeira filial internacional. Atualmente estamos presentes em 21 países.

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AI/TerraCycle

JEN: Impacta quantas pessoas no Brasil?
Renata: Atualmente nossos programas impactam cerca de 2,3 milhões de pessoas de maneira direta, já garantiram que mais de 37 milhões de unidades de resíduos fossem encaminhadas para reciclagem, itens que, por serem complexos, fatalmente seriam depositados em lixões, aterros sanitários ou mesmo na natureza. Nossos programas já propiciaram a doação de mais de R$ 660 mil para escolas públicas e instituições sem fins lucrativos.

No mundo, impactamos diretamente cerca de 203 milhões de pessoas, reciclamos cerca de 7,8 bilhões de resíduos classificados como não recicláveis e já doamos cerca de 45 milhões de dólares para escolas públicas e instituições sem fins lucrativos.

JEN: Qual foi o resultado durante a pandemia?
Renata: Fomos impactados pela pandemia, não porque houve uma redução no volume de resíduo gerado pelas pessoas que, claro, continuaram consumindo, mas como grande parte dos nossos programas envolve um esforço coletivo, sobretudo em escolas e universidades, a interrupção das atividades nestes locais causou um impacto considerável no volume de resíduos encaminhados para reciclagem. Por outro lado, percebemos um aumento na inquietação por parte das pessoas que passaram a ter uma relação mais direta com o montante de lixo gerado por elas. Isso também tem feito com que estes consumidores passem a pressionar mais a indústria e até mesmo os condomínios em que residem por soluções que garantam a correta destinação (reciclagem) dos resíduos, sobretudo das embalagens.

JEN: Quais gargalos o programa enfrenta em nível regional e global?
Renata: Cada região tem seu próprio desafio. No Brasil, eu diria que a logística e a ausência de políticas públicas voltadas à coleta seletiva fazem com que muitos resíduos, inclusive aqueles que têm valor econômico, acabem sendo depositados em lixões, aterros sanitários e até mesmo na natureza. Cerca de 80% dos municípios brasileiros não dispõem de nenhum tipo de coleta seletiva e isso faz com que as pessoas tenham uma relação muito distante com o lixo gerado por elas. Existe um outro desafio, neste caso global, de produzirmos produtos e embalagens menos complexos e repensarmos o nosso modelo atual de consumo.

JEN: Ao que se deve a baixa adesão aos programas de reciclagem em todo o mundo?
Renata: Eu não me sinto em condições de afirmar que existe uma baixa adesão à iniciativas voltadas à reciclagem em todo o mundo. Até mesmo porque na Europa, por exemplo, alguns países contam com taxas bem elevadas de reciclagem e isso se deve a diversos fatores, como políticas públicas, nível educacional (pessoas com maior escolaridade tendem a ter um maior senso crítico), aspectos socioculturais, geopolíticos etc.

Falando especificamente sobre a TerraCycle, nós movimentamos de maneira direta mais de 200 milhões de pessoas nos 21 países em que atuamos. Os resíduos que coletamos são considerados não-recicláveis devido a sua alta complexidade. Nós desenvolvemos meios de reciclá-los e em seguida reintroduzimos essa matéria-prima no ciclo produtivo.

O que podemos dizer por certo é que ainda há muito o que se fazer. Por outro lado, nunca se falou tanto a respeito como nos últimos anos. Isso nos leva a crer que existe uma luz no fim do túnel. O fato é que será necessário revisitar o modelo de consumo atual e isso se dará por meio de um esforço coletivo que envolverá governos, indústria, comércio e sociedade civil.

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Renata Ross, gestora de Marketing e Relacionamento da empresa. AI/ TerraCycle

JEN: O que é necessário para uma ampliação de tais programas?
Renata: Falando especificamente da TerraCycle, nossos programas só podem existir com o apoio de empresas, sobretudo a indústria que produz produtos e bens de consumo cuja composição (do produto em si ou de suas embalagens) é mais complexa ou de baixa qualidade, fazendo com que a reciclagem não seja economicamente viável. Porque a verdade é que os aspectos econômicos se configuram como um fator decisivo nessa equação, a exemplo do alumínio que tem uma taxa de reciclagem superior a 90% no Brasil.

A TerraCycle atua exatamente no segmento dos não recicláveis, disponibilizando uma plataforma que permite aos consumidores enviar seus resíduos de maneira totalmente gratuita e ainda contam com um incentivo social, haja vista que para cada de unidade de resíduo enviada o consumidor ganha pontos que são convertidos em doação para instituições sem fins lucrativos indicadas pelo próprio participante (consumidor).

JEN: De que forma o micro e médio empreendedor pode contribuir com os programas?
Renata: A TerraCycle dispõe de algumas unidades de negócios exatamente para atender empresas de diferentes portes. Além do Programa Nacional de Reciclagem, a TerraCycle conta também com opções mais customizadas, voltadas para organizações que buscam soluções específicas.

Importante é buscar aplicar os 5R’s em seus hábitos cotidianos: repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar

JEN: Existem incentivos fiscais para criação/adesão ou contribuição com os programas?
Renata: Ao implementar um Programa Nacional de Reciclagem com a TerraCycle, a empresa passa a estar em conformidade com a PNRS 12305 que exige, entre outras coisas, que organizações (sobretudo a indústria) disponibilizem soluções de logística reversa aos consumidores de maneira independente do sistema público de coleta.

Além disso, a TerraCycle tem trabalhado junto às cooperativas de reciclagem para que essas instituições também sejam remuneradas pela separação dos resíduos não recicláveis que são aceitos em nossos programas.

JEN: O setor público participa de alguma forma?
Renata: As empresas que implementam Programas Nacionais de Reciclagem apresentam a iniciativa ao poder público como um dos recursos para atender a PNRS.

JEN: Quais ações são necessárias, mesmo que fora dos programas, para uma participação efetiva no cuidado ao meio‐ambiente?
Renata: O consumidor tem um poder enorme nas mãos. À medida em que percebe que, ao comprar um produto ou serviço, está votando com o seu dinheiro para a manutenção de um determinado modelo de negócios, ele se coloca como protagonista nesta relação e não mais como um mero espectador. Consumidores que já entenderam o seu papel passam a exigir produtos mais saudáveis, eco-friendly, bem como meios de produção mais alinhados aos seus valores pessoais. Ao não se sentirem atendidos, simplesmente migram para marcas que respondem aos seus anseios. Então a minha dica primordial é que utilizem os canais disponíveis e comuniquem suas preferências, as mudanças acontecem mais rapidamente quando exercemos este direito e, nesse sentido, todos ganham, inclusive a indústria que terá a oportunidade de se adequar e reter consumidores.

Outra dica importante é buscar aplicar os 5R’s em seus hábitos cotidianos: repensar, reduzir, recusar, reutilizar e reciclar

JEN: Quais ações estão planejadas para os próximos meses/anos?
Renata: Pretendemos ampliar o número de Programas voltados à Reciclagem. Além disso, a TerraCycle conta com outras iniciativas de impacto socioambiental. Uma delas é o Loop que busca reinventar o futuro das embalagens para que possamos sair de um modelo linear de embalagens descartáveis e migrar para itens duráveis, com design inovador e que podem ser utilizados por dezenas de vezes. Modelo similar aos antigos cascos de bebidas envasadas, ou mesmo do leiteiro de décadas atrás, de uma maneira agradável e confortável para o consumidor. Para tanto, conta com a participação de empresas como Nestlé, Coca-Cola, Unilever, P&G, Danone, entre outras, além de redes varejistas.

O Loop foi lançado nos Estados Unidos e na França em 2019 e já se encontra disponível em países como Inglaterra, Japão, Austrália e Canadá. A perspectiva é de que seja lançado no Brasil em 2023. Seguem algumas referências:

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Imagem: Freepik

JEN: Nos programas com envio via Correios, quantos quilos e quais materiais podem ser enviados?
Renata: Ao todo temos nove programas voltados ao consumidor direto B2C, cada um com suas especificações e peso mínimo requeridos que podem ser vonsultados no site da empresa.

JEN: Por que esse programa via Correio não é divulgado?
Renata: A TerraCycle é um negócio social. Trabalhamos com comunicação orgânica e por meio das nossas redes sociais. Além disso, algumas marcas comunicam seus programas nas embalagens e em seus canais institucionais

JEN: O consumidor precisa levar os produtos até o ponto de descarte próximo da sua casa. Praticamente poucos sabem onde fica. Como informar?
Renata: Qualquer consumidor poderá enviar gratuitamente os resíduos aceitos nos programas. Para tanto, basta se cadastrar no site da TerraCycle, se registrar nos programas que deseja participar, imprimir a etiqueta de postagem pré-paga e em seguida levar sua(s) caixa(s) até a agência dos Correios mais próxima. O sistema dos Correios é o mais democrático que existe atualmente, pois permite que mesmo pessoas em locais mais remotos possam participar.

Além das agências dos Correios, alguns programas como o de esponjas e de instrumentos de escrita contam com pontos públicos de coleta (endereços disponíveis nas páginas desses programas), que permitem aos consumidores identificar se existe algum local próximo para que possa descartar seus resíduos.

JEN: A ideia geral é muito boa, no entanto, não há divulgação. Por quê?
Renata: A TerraCycle é um negócio social. Trabalhamos com comunicação orgânica e por meio das nossas redes sociais. Além disso, algumas marcas comunicam seus programas nas embalagens e em seus canais institucionais

JEN: Já fizeram algum programa envolvendo estudantes do curso primário? Um campeonato entre escolas?
Renata: Sim, anualmente a TerraCycle promove concursos variados de coleta que incentivam escolas de todo o Brasil a enviar resíduos. Os vencedores recebem prêmios especiais e pontos bônus que poderão ser convertidos em doação para as próprias escolas, haja vista que são instituições sem fins lucrativos. Independentemente dos concursos, os programas oferecem incentivos financeiros perenes. Temos diversos casos de escolas que usam os recursos financeiros obtidos com a participação nos programas para a compra de material esportivo, ingresso para teatros e excursões.

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