Colocar princípios acima de personalidades é uma forma de garantir a longevidade da empresa

Sheila Shimada (*)

Muitas pessoas acreditam que uma ótima empresa é composta pelo conjunto de ótimas pessoas, mas essa é apenas parte da verdade sobre o sucesso de um negócio. Pessoas podem ser excelentes e ainda assim não saber como se relacionar. O relacionamento, a dinâmica de suas interações é absolutamente fundamental para o sucesso e longevidade da empresa.

Dessa forma, cuidar de normas essenciais para garantir o bom relacionamento nas empresas é fundamental para que a longevidade seja garantida.

Uma das normas primárias a ser desenvolvida quando se trata de gestão de relacionamentos na Governança corporativa, é o desenvolvimento de princípios norteadores, e, dentre eles, o primeiro a ser estruturado deve ser o princípio da Unidade.

No princípio da Unidade, fica estabelecido que o bem estar comum do grupo deve prevalecer sobre os interesses individuais de cada membro. Dessa forma, garantimos que em todas as decisões tomadas na empresa, o bem estar do grupo seja privilegiado em detrimento do individual.

Isso não significa, de modo algum, que o indivíduo seja desvalorizado, mas sim, garante que dentro do âmbito corporativo esse indivíduo será ouvido, mas seus interesses não poderão se sobrepor aos interesses que fariam um bem melhor à coletividade.

Na prática, vemos que empresas que não têm como objetivo final a garantia do bem estar comum, correm grande risco de conferir privilégios, arbitrariedades e autoritarismo dentro de seus atos de gestão, de forma que o combate a tais atos é imprescindível para garantir a longevidade da empresa.

Um exemplo de garantia desse princípio, pode ser vislumbrado nas Reuniões de sócios/acionistas e Assembleias nas sociedades. Nesses momentos onde as decisões são tomadas, é fundamental que a empresa se pergunte o seguinte: Essa decisão nos afasta ou nos aproxima ainda mais? Essa decisão é favorável ao bem estar do grupo ou privilegia interesses pessoais?

Desse princípio fundamental nascem outros também importantes como a garantia de isonomia no tratamento de qualquer indivíduo, garantia de princípios de meritocracia e combate ao nepotismo.

Além disso, quando se estabelecem princípios que são comuns a todos os cargos, teremos ainda a criação de uma identidade da empresa e saberemos, por exemplo, quais os valores fundamentais da companhia e o propósito primordial, e, quando sabemos os princípios pelos quais se unem as pessoas, temos a unidade garantida.

A Unidade por sua vez é o princípio que garante união e engajamento da empresa como um todo e permite sua expansão. Quando temos pessoas unidas pelo mesmo objetivo podemos diversificar personalidades, histórias, currículos e perfis, sem o risco de ruptura de valores ou da própria gestão.

Um exemplo da aplicação do princípio da Unidade na prática poderia se dar nas seguintes normas de governança:

  1. Para empresas familiares: os atos de gestão devem ser tomados de forma a garantir que a família esteja no controle da empresa. Nesse caso, o bem estar familiar deve ser levado em primeiro lugar. Caso alguma decisão seja tomada que prejudique o bem estar da família, será revista, pois o funcionamento da sociedade depende do bem-estar do núcleo familiar.
  2. Princípios estão acima de personalidades, assim, a forma de contratação, demissão e admissão de sócios, funcionários ou associados na empresa, deverão respeitar as normas descritas no ato constitutivo, independentemente de qual cargo queiram ocupar.
  3. O propósito primordial da empresa é garantir a entrega com qualidade dos nossos produtos e serviços, de modo que qualquer ato de gestão que seja contra esse propósito, deve ser anulado sob pena de interferir no crescimento da empresa.

Construir normas que visem o direcionamento das decisões voltadas para o bem comum da empresa, é fundamental para a construção das bases de qualquer governança corporativa dentro da companhia,  isso porque a empresa precisa sobreviver; caso contrário, não sobreviverão os empregos e interações dos indivíduos. Assim, preservar o bem-estar comum como conceito que deve vir em primeiro lugar dentro dos princípios da governança corporativa, é a melhor forma de viver e trabalhar em grupo.

(*) – Formada pela Mackenzie, Pós em Direito Processual Civil na PUC-SP, Extensão na FGV Law em Tributação, é professora de direito empresarial na USP. É Mediadora, formada pela Faculdade Legale.

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