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A sucessão familiar na pecuária leiteira depende mais de tecnologia do que de tradição

em Espaço empresarial
quinta-feira, 16 de julho de 2026

Edison Acherman (*)

Em mais de 30 anos acompanhando a pecuária leiteira, perdi a conta de quantas vezes ouvi a mesma frase: “Meu filho não quer ficar na fazenda”.

Durante muito tempo, a explicação parecia simples. Os jovens foram embora para a cidade em busca de oportunidades melhores. Mas, observando mais atentamente o que acontece dentro das propriedades, cheguei a uma conclusão diferente. Na maioria das vezes, eles não estão rejeitando o campo, mas um modelo de trabalho que já não faz sentido para a nova geração.

Recentemente, lembrei-me de uma conversa que tive em uma feira em Campos Novos, em Santa Catarina, pouco antes da pandemia, em 2020. Um produtor havia acabado de investir em automação. Quando questionado sobre o motivo da decisão, a resposta veio sem rodeios: sua filha, veterinária, havia dito que só continuaria na atividade se a fazenda desse um passo em direção à tecnologia.

Anos depois, encontrei essa mesma família novamente. E lá estava a filha, acompanhando dados pelo celular, orientando decisões e participando da gestão da propriedade.

Essa história resume uma transformação que está ocorrendo silenciosamente em toda a cadeia leiteira.

Por décadas, a atividade esteve associada a uma rotina extremamente exigente. As vacas não conhecem finais de semana, feriados ou férias; a ordenha é diária, o manejo exige atenção constante e muitos produtores passaram a vida inteira sem conseguir se afastar da fazenda por algumas horas.

Não por acaso, consolidou-se a percepção de que produzir leite significava abrir mão de parte importante da própria liberdade. Pode parecer uma afirmação dura, mas quem vive essa realidade sabe que ela não está totalmente distante da verdade.

A questão é que uma nova geração cresceu em um mundo diferente. Os jovens de hoje querem construir carreira, mas também querem qualidade de vida. Querem trabalhar com propósito, mas também querem ter tempo para a família. Querem empreender e inovar, mas tomar decisões e utilizar tecnologia.

Isso não deveria ser visto como um problema. Na verdade, é uma oportunidade.

Tenho visitado fazendas nas quais filhos e filhas assumem responsabilidades ligadas à análise de dados, reprodução, gestão financeira, monitoramento de indicadores e planejamento estratégico. Eles continuam produzindo leite, mas de uma forma muito diferente da geração anterior: o trabalho braçal perde espaço para a gestão, a repetição dá lugar à tomada de decisão e a experiência passa a caminhar ao lado da tecnologia.

Muitas vezes ouvimos que a sucessão familiar é um desafio cultural. Concordo que existe um componente cultural importante, mas acredito que a questão seja, sobretudo, estrutural. Afinal, nenhum jovem deseja assumir um negócio que ofereça menos qualidade de vida do que outras alternativas profissionais disponíveis.

Por outro lado, muitos demonstram interesse em permanecer no campo quando percebem que podem construir uma carreira moderna, sustentável e alinhada às transformações do mundo. É justamente nesse ponto que a tecnologia assume um papel decisivo.

Sua importância vai muito além do aumento da produtividade, da eficiência ou dos resultados econômicos. Ao automatizar processos, a tecnologia torna a atividade mais humana, devolve liberdade ao produtor e cria condições para que as famílias construam um futuro dentro da própria propriedade.

A automação ainda é vista como tendência em muitas regiões do Brasil, mas caminha para se tornar uma necessidade. Quando uma fazenda automatiza processos, não está apenas substituindo mão de obra por máquinas; está retirando produtores e equipes de tarefas repetitivas para que possam se dedicar a atividades de maior valor, com foco em gestão, planejamento e tomada de decisão.

Nos próximos anos, as discussões sobre sucessão no agronegócio serão cada vez mais frequentes. Isso é fundamental, mas talvez seja hora de mudar a pergunta que fazemos com tanta frequência.

Em vez de questionar por que os jovens estão deixando o campo, talvez devêssemos refletir sobre o que estamos fazendo para que eles queiram permanecer nele. A resposta pode ajudar a definir o futuro da pecuária leiteira brasileira.

(*) Gerente-geral da Lely Latam.