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A IA já funciona, mas por que as empresas ainda hesitam?

em Espaço empresarial
sexta-feira, 15 de maio de 2026

Recentemente, me peguei reafirmando algo que, dentro do contexto tecnológico atual, soa quase como uma obviedade: a inteligência artificial (IA) já provou que funciona. Ela escreve, analisa, recomenda, prevê e, em muitos casos, entrega mais rápido e com mais eficiência do que qualquer equipe conseguiria. O que antes parecia experimental e futurista já se consolidou como infraestrutura, deixando de ser uma aposta e se tornando um elemento operacional, silencioso e cada vez mais indispensável.

Ainda assim, nas corporações, a adoção real segue um padrão curioso. Começa com entusiasmo, avança para pilotos promissores e, então… desacelera. E, pela minha experiência, isso raramente acontece por limitação técnica, mas por algo mais difícil de medir: a falta de confiança.

Esse talvez seja o ponto mais negligenciado na discussão atual. Já não estamos tentando provar o que a tecnologia é capaz de fazer. Buscamos entender até onde estamos dispostos a permitir que ela vá – uma decisão que, longe de ser técnica, é, essencialmente, institucional.

Empresas, por natureza, não operam bem na ambiguidade. Para que uma tecnologia se torne parte do core business, previsibilidade, clareza de limites e entendimento de comportamento sempre foram premissas básicas. O desafio é que a IA, especialmente em sua forma mais avançada, não foi desenhada para ser totalmente previsível. Modelos generativos operam por probabilidade, não por certeza, e é justamente aí que surge o atrito com a lógica empresarial, que depende de controle, rastreabilidade e responsabilização.

É nesse ponto que muitos projetos travam. Não porque a IA não entrega valor; ocorre que as companhias não demonstram segurança suficiente para expandir com consistência. Contudo, a resposta para esse impasse está tanto na evolução dos modelos quanto como estruturamos o seu uso.

Nos últimos anos, a ética em IA ganhou espaço. Princípios são definidos, compromissos assumidos, no entanto, a confiança não nasce da intenção, e sim do comportamento, que é o que arquiteta, constrói a IA. Quando a ética passa a guiar decisões concretas – o que pode, o que não pode, quando escalar, quais riscos aceitar – ela se transforma em infraestrutura de convicção.

Esse aspecto se torna ainda mais sensível com a chegada da IA agêntica: sistemas que não apenas respondem – eles agem. E, como era de se esperar, quanto maior a autonomia, maior o desconforto. Sem um conjunto claro de limites e diretrizes operacionais, essa autonomia vira uma ameaça ao invés de uma vantagem. Não é simplesmente um risco técnico, mas algo percebido, daqueles que fazem companhias hesitarem mesmo diante de ganhos evidentes. É por isso que a discussão sobre ética precisa subir de patamar.

Não se trata de criar regras genéricas que se aplicam a qualquer contexto, nem de adaptar completamente os princípios ao interesse de cada negócio. Ambos os caminhos são frágeis: de um lado, instruções amplas demais não orientam decisões reais; de outro, uma ética moldada exclusivamente ao cenário pode assumir um caráter oportunista e corroer a própria confiabilidade que deveria sustentar. O equilíbrio está na combinação entre fundamentos universais e aplicação contextual.

Preceitos como segurança, privacidade e não discriminação não são negociáveis, entretanto, a maneira como se traduzem em sistemas, fluxos e resoluções necessita refletir a realidade de cada organização, seu setor, seu nível de vulnerabilidade e sua relação com clientes. Nessa tradução, a confiança se materializa. E é isso que separa negócios que só experimentam a IA daqueles que realmente a incorporam. Em termos práticos, a diferença reside na capacidade de integrar a tecnologia de modo confiável.

A próxima fase da IA não será determinada por quem tem acesso aos melhores modelos – até porque eles estão cada vez mais acessíveis –, mas por quem conseguir construir as condições para utilizá-los com consistência, responsabilidade e escala. Porque, no fim das contas, confiança é uma pré-condição imprescindível que sustenta a IA no âmbito das organizações – não um efeito colateral da adoção.

(Fonte: Vinicius Galera é VP Global de AI na FCamara).

5 tecnologias de inteligência artificial que já beneficiam os brasileiros – Jornal Empresas & Negócios