684 views 6 mins

Lay-offs globais. O que está acontecendo, afinal?

em Economia da Criatividade
quinta-feira, 22 de dezembro de 2022

Após um período de dois anos de contenção na economia mundial, com crescimentos próximos de zero nos PIBs de muitos países, das instabilidades e incertezas geradas pela guerra na Ucrânia e as consequências na matriz energética de boa parte da Europa, os juros subiram nos Estados Unidos, na Europa e no Brasil. Com isso, os investidores e gestores de fundos têm mais opções à disposição, atreladas à menores taxas de risco e com boa rentabilidade. Assim, reduzem novos investimentos em startups e em outras empresas de tecnologia.

Não é novidade que empresas robustas, como Meta, Twitter, Microsoft, Netflix e Amazon estão reduzindo seus quadros de colaboradores. O movimento, chamado de lay-off, tem sido acompanhado em todos os continentes e em vários tipos de empresas. Só nos EUA, as big techs já demitiram mais de 90 mil trabalhadores em 2022. E o ano ainda não acabou.

O Twitter teve um ano bastante atípico, com movimentos de intenção de compra, desistência, efetivação de compra e nova direção, resultando em 3700 pessoas demitidas, o que representa impressionantes 50% da sua força de trabalho. Esse desfecho é fruto de um acúmulo de problemas, pois a empresa chegou a perder 4 milhões de dólares por dia e não possui um modelo de negócio sustentável. O potencial da rede de usuários não basta, se continua sendo apenas potencial.

A Meta também passa por dias difíceis e já demitiu 11 mil funcionários globalmente ao longo do ano. Apesar de ter contratado muitas pessoas para o desenvolvimento do metaverso, ainda não conseguiu convencer os investidores. Em meio a escândalos e denúncias sobre apropriação e utilização de dados de seus usuários, as ações do grupo caíram seguidamente, assim como o número de usuários, que tem migrado para outras redes e serviços, como o TikTok e o Koo.

Durante a pandemia, o aumento expressivo no e-commerce levou a Amazon a contratar mais de 200 mil pessoas, chegando ao número de um milhão e meio de colaboradores. Porém, o mercado mudou e a margem de lucros vem caindo a cada trimestre, o que levou a empresa a estimar um corte de 10 mil funcionários, no início de 2023.

Apple e Google não possuem registros de demissões em massa, mas especula-se que algumas áreas de desenvolvimento de software foram descontinuadas.

Para as startups, as rodadas de negócios passam a ser mais escassas, mais exigentes e mais demoradas. Além disso, os valores em discussão são bem menores do que eram há alguns anos. As empresas que conseguiram investimentos no passado, precisaram rever seus planos, e muitas cortam custos para sobreviver. O trabalho das startups passa por ideias inovadoras e disruptivas. E isso custa dinheiro, é preciso grande capital para tornar projetos, serviços e/ou produtos viáveis. Quando os investidores diminuem seus aportes em empresas que praticam o cash burn, as startups precisam encontrar outra forma de se sustentarem sozinhas. O corte na folha é um caminho para esse processo.

Até as empresas chamadas de unicórnios sofrem com esse cenário. A plataforma imobiliária Loft reduziu seu quadro em cerca de 12% neste mês. A startup de saúde Alice dispensou cerca de 16% da sua equipe recentemente. Na plataforma de mobilidade Buser o corte foi ainda maior. Foram demitidos 30% dos colaboradores da empresa.

Apesar disso, a demanda por capital humano, com competências e habilidades especializadas, deve continuar em alta, justamente porque as empresas vão precisar se reinventar para se manter na concorrência. Os profissionais especializados provavelmente conseguirão recolocação rápida em outras empresas do mesmo setor ou com caraterísticas semelhantes. No Brasil, com milhares de vagas abertas na área de tecnologia, é provável que os demitidos pelas big techs sejam absorvidos por ouras empresas. A Brasscom (Associação das Empresas de Tecnologia da Informação e Comunicação) aponta que serão criados cerca de 800 mil postos de trabalho, nos próximos cinco anos, no Brasil.

Com graduação em Engenharia, pós-graduações em Marketing e Computação Aplicada à Educação, Mestrado em Educação Matemática e Doutorado em andamento na mesma área, Luis Pacheco tem experiência no mercado financeiro e em empresas digitais, atua como professor no ensino superior, como mentor de startups, como pesquisador e é autor de conteúdo especializado.