
Haroldo da Silva (*)
Nos últimos anos, ganhou força no debate econômico internacional o conceito de empresas zumbis. A expressão, amplamente difundida após estudos do Bank for International Settlements e da Organisation for Economic Co-operation and Development, passou a ser usada para descrever empresas que continuam operando, mas cuja geração de caixa não é suficiente para cobrir de forma sustentável seus custos financeiros. São companhias que sobrevivem por meio de refinanciamentos sucessivos de dívidas, sem capacidade real de investimento, crescimento ou ganho de produtividade.
Uma empresa zumbi, em termos simples, é aquela que não consegue pagar seus juros com o lucro operacional, depende constantemente de novas renegociações de crédito e, como consequência, investe pouco, inova pouco e apresenta produtividade baixa. Ao permanecerem em atividade, essas empresas acabam ocupando capital, trabalho e recursos que poderiam ser direcionados para companhias mais eficientes e dinâmicas.
O fenômeno ganhou notoriedade nas economias avançadas nas últimas décadas. Pesquisas do Bank for International Settlements indicam que a participação de empresas classificadas como zumbis entre companhias listadas nessas economias saltou de cerca de 2% nos anos 1980 para aproximadamente 12% nas décadas mais recentes. Análises da OCDE mostram que a proliferação dessas empresas tende a reduzir o investimento agregado, diminuir a produtividade média e dificultar a realocação eficiente de capital para negócios mais inovadores e competitivos.
A literatura econômica e a imprensa internacional também têm chamado atenção para os efeitos sistêmicos desse processo. A revista The Economist, por exemplo, destaca que a presença crescente de empresas zumbis não afeta apenas o desempenho dessas companhias isoladamente. Ela contamina o ambiente econômico como um todo. Setores com maior presença dessas empresas tendem a registrar menor entrada de novos negócios, saída mais rápida de empresas saudáveis e redução da chamada “destruição criativa”, mecanismo essencial para o dinamismo econômico. Além disso, trabalhadores acabam permanecendo em empresas pouco produtivas, enquanto companhias mais eficientes enfrentam dificuldades para atrair talentos e expandir suas atividades.
Em muitas economias desenvolvidas, esse fenômeno foi associado ao longo período de juros muito baixos que se seguiu à crise financeira global de 2008. O crédito barato e abundante permitiu que empresas pouco eficientes continuassem existindo, muitas vezes sustentadas por refinanciamentos sucessivos.
No Brasil, porém, o problema assume contornos diferentes e, em certos aspectos, ainda mais preocupantes. Aqui não convivemos com crédito excessivamente barato. Pelo contrário. A economia brasileira historicamente opera com juros estruturais muito elevados. Atualmente, a taxa básica de juros, a Selic, gira em torno de patamares próximos a 15% ao ano.
Isso transforma o custo do capital em um dos principais determinantes da sustentabilidade empresarial. Quando o dinheiro permanece caro por longos períodos, grande parte do fluxo de caixa das empresas passa a ser direcionada ao serviço da dívida. O resultado é previsível: investimentos são adiados, projetos de expansão são engavetados e a capacidade de inovação diminui.
Nesse ambiente, as empresas passam a operar em modo defensivo. Em vez de priorizar crescimento e produtividade, dedicam-se a administrar passivos financeiros. A consequência é um tecido produtivo mais frágil e menos dinâmico.
E esse não é um problema restrito às pequenas empresas. Grandes grupos empresariais, especialmente em setores intensivos em capital, também se tornam vulneráveis quando o custo do dinheiro permanece elevado por períodos prolongados. Casos amplamente discutidos pelo mercado envolvendo empresas como Grupo Pão de Açúcar, Raízen e Cosan ilustram como estruturas empresariais complexas podem enfrentar pressões financeiras relevantes em ambientes de juros persistentemente altos. Para micro, pequenas e médias empresas, cuja capacidade de acesso a crédito é mais limitada, o impacto tende a ser ainda mais severo.
Quando o ambiente macroeconômico induz empresas a priorizar a gestão de passivos em vez do investimento produtivo, o impacto ultrapassa os balanços corporativos. Ele afeta diretamente o potencial de crescimento da economia. Uma estrutura produtiva pressionada financeiramente investe menos, inova menos e cresce menos.
Por isso, o debate sobre o custo do capital não deve ser tratado apenas como uma discussão financeira ou de política monetária. Trata-se de um tema estrutural para o desenvolvimento econômico. O nível de juros influencia decisões empresariais, a dinâmica da concorrência, a produtividade e, no limite, a capacidade de uma economia gerar crescimento sustentável.
Diante desse cenário, uma pergunta se impõe: por quanto tempo uma economia consegue conviver com juros reais entre os mais elevados do mundo sem comprometer a vitalidade de sua própria estrutura produtiva?
Se a pressão financeira continuar a se intensificar, é provável que as varas especializadas em falências e recuperações judiciais tenham cada vez mais trabalho pela frente, um sinal de alerta para o ambiente de negócios.
O que está claro é que o tema precisa ser enfrentado com mais profundidade. Estudos mais detalhados poderiam, por exemplo, analisar dados de balanços corporativos ao longo do tempo para identificar quanto do fluxo de caixa das empresas brasileiras vem sendo direcionado ao pagamento de despesas financeiras. Esse tipo de diagnóstico ajudaria a dimensionar melhor o impacto do custo do capital sobre o dinamismo empresarial.
No fim das contas, discutir juros não é apenas discutir inflação ou política monetária. É discutir o futuro da própria estrutura produtiva do país.
(*) Economista e advogado. É Doutor em Ciências Políticas Pela PUC-SP, Mestre em Desenvolvimento Econômico pelo UFPR, Especialista em Direito Tributário pelo IICS. Professor, Economista-Chefe da Associação Brasileira da Indústria Têxtil e de Confecção e Diretor de Relações Institucionais do Sinditêxtil-SP. Autor do livro “A ilusão Neoliberal da Indústria”. Atual Presidente do Corecon-SP.



