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Por que o futuro do trabalho não é sobre presença, mas sobre intenção

em Destaques
quarta-feira, 01 de julho de 2026

Daniel Moral (*)

Durante anos, empresas discutiram quantos dias por semana seus colaboradores deveriam estar no escritório. Em 2026, essa já não é a pergunta mais importante. As organizações mais avançadas passaram a fazer outra reflexão: quais atividades realmente exigem presença física porque geram mais valor quando realizadas presencialmente?

Essa mudança não é apenas uma percepção do mercado. De acordo com pesquisa realizada pela McKinsey em parceria com a FGV (2025), que analisou 2.847 empresas brasileiras, 73% delas já implementaram o trabalho híbrido e as projeções indicam que, até 2027, 85% das organizações adotarão o modelo. Esses números mostram que os formatos flexíveis estão se consolidando no mercado brasileiro, inclusive em setores mais tradicionais.

Quando empresas promovem encontros para que equipes criem conexões e se aproximem, elas não estão apenas flexibilizando a rotina. Estão reconhecendo algo que o mercado corporativo vem aprendendo nos últimos anos: a presença física continua relevante quando promove interação, colaboração e construção de relacionamentos.

Essa nova lógica reflete uma mudança profunda na forma como o trabalho é organizado. Durante décadas, os escritórios foram desenhados como locais de execução de tarefas. As pessoas se deslocavam diariamente porque era ali que estavam os recursos, as informações e os processos necessários para trabalhar.

A tecnologia mudou essa lógica. Reuniões, apresentações, relatórios e grande parte das atividades individuais podem ser realizadas de qualquer lugar. O que não foi substituído pela tecnologia é a capacidade humana de criar conexões, gerar confiança, colaborar espontaneamente e construir cultura. É justamente por isso que momentos coletivos continuam tendo tanto valor.

Quando equipes se reúnem para acompanhar um jogo, participar de um evento interno ou compartilhar uma experiência em grupo, acontece algo que dificilmente pode ser reproduzido em uma videoconferência: interações não planejadas. Conversas informais, troca de ideias entre áreas diferentes, fortalecimento de relacionamentos e construção de pertencimento.

As pessoas continuam valorizando encontros presenciais, desde que exista um motivo relevante para isso. Essa transformação ajuda a explicar também uma mudança importante no mercado imobiliário corporativo.

O crescimento dos espaços flexíveis não é simplesmente uma consequência do trabalho híbrido. Ele é resultado da mudança de função dos escritórios. Se antes o espaço físico era necessário para a execução das atividades do dia a dia, hoje ele é cada vez mais utilizado para colaboração, integração de equipes, inovação, relacionamento com clientes e fortalecimento da cultura organizacional.

Nesse cenário, empresas passaram a buscar ambientes mais adaptáveis, capazes de receber desde reuniões estratégicas e encontros de liderança até treinamentos, workshops e momentos de integração. A flexibilidade deixa de ser apenas uma questão de metragem e passa a ser uma ferramenta para apoiar novas formas de trabalho.

O impacto dessa mudança vai além das empresas. Ele influencia diretamente a forma como as cidades se organizam, como as pessoas se deslocam e como os pólos corporativos se desenvolvem. Com menos necessidade de deslocamentos diários para atividades individuais e mais encontros presenciais orientados por propósito, surgem oportunidades para uma ocupação mais distribuída dos espaços urbanos e para novos modelos de uso do mercado imobiliário corporativo.

Ao mesmo tempo, reforça a necessidade de espaços capazes de reunir pessoas quando a interação presencial realmente faz diferença. Por isso, o futuro do trabalho não será totalmente remoto nem totalmente presencial. Será cada vez mais intencional. As organizações mais bem-sucedidas não serão aquelas que exigirem mais dias de presença, mas aquelas que conseguirem criar razões claras para que as pessoas busquem estar juntas.

*Daniel Moral é formado em Processamento de Dados, com MBA em Gestão de Empresas pela FGV. Iniciou sua carreira na área de tecnologia, chegando ao cargo de gerente de sistemas no Itaú antes de empreender. Há mais de 12 anos atua como CEO do Eureka Coworking, liderando a empresa com foco em inovação, experiência e impacto urbano. Acredita no empreendedorismo como ferramenta de transformação de pessoas e cidades. Também é coidealizador do Bike Tour SP, negócio social que une mobilidade, cultura e solidariedade, tornando-se referência em turismo na capital paulista.

(*) CEO e fundador da Eureka Coworking.

O futuro do trabalho pede atualização e equilíbrio – Jornal Empresas & Negócios