
Bergson Lopes (*)
Os primeiros programas de Governança de Dados surgiram há mais de uma década. Naquele momento, muitos deles se apoiaram no impulso trazido pelo Big Data, consolidando-se como iniciativas necessárias para lidar com o crescimento exponencial dos dados. Em seguida, vieram as demandas relacionadas à Governança da Privacidade, guiadas pela LGPD (Lei Geral de Proteção de Dados) e pela preocupação com o uso correto dos dados.
Hoje, um dos grandes motivadores desses programas é a necessidade de preparar os dados para a Inteligência Artificial, garantindo que modelos sejam treinados com informações confiáveis, rastreáveis, éticas e alinhadas às regulações vigentes.
Apesar disso, mesmo sendo considerados fundamentais para a adoção adequada dessas novas tendências, muitos programas de Governança de Dados ainda enfrentam dificuldades para conquistar apoio e patrocínio efetivo dentro das organizações, especialmente no nível executivo e os motivos são diversos: desde a formação inadequada das equipes, passando pelo foco excessivamente técnico das iniciativas, até a falta de investimentos e esforços consistentes em aculturamento de dados.
Entretanto, há um fator adicional que observo com frequência: a dificuldade de evoluir o programa por meio de pequenas entregas, sejam elas estruturantes ou geradoras de valor. Porém, essa é a melhor saída.
De modo geral, muitos programas iniciam suas jornadas a partir da criação de políticas de dados e da execução de processos essencialmente técnicos da Gestão, e param por aí. Ignoram as dores, as expectativas e as necessidades reais das áreas de negócio e operações. Como resultado, o programa se comporta como uma estrutura interna voltada para si mesma, em vez de atuar como um mecanismo de habilitação para toda a organização.
Um programa de Governança de Dados deve existir para garantir que os dados estejam aptos a viabilizar e sustentar as estratégias da empresa, considerando também que é preciso, atualmente, suportar iniciativas de IA Generativa, analítica preditiva e automações inteligentes. Ou seja, ele precisa ser muito mais estratégico do que operacional. É nesse ponto que se torna fundamental comprovar o valor do programa por meio de entregas estruturadas e alinhadas às prioridades de negócio.
As ações estruturantes são iniciativas que criam as bases essenciais para que a Governança de Dados funcione, como, por exemplo, definir termos de negócio, modelar dados legados, implantar catálogos, formalizar comitês e garantir segurança, privacidade e políticas de uso responsável na era da IA. Já as ações de melhorias são diretamente percebidas pelas áreas de negócio, como aumento da qualidade dos dados de clientes, integração entre unidades e disponibilização de plataformas que elevam a produtividade ou habilitam casos de uso de IA com dados confiáveis.
A estratégia do Pilar x Ponte
Uma abordagem que gosto de adotar ao montar o backlog de entregas de programas de Governança de Dados é a relação entre os pilares e a ponte. Os pilares representam as iniciativas estruturantes, aquelas que sustentam e tornam possível o avanço do programa. Já a ponte representa as entregas visíveis, que geram valor tangível e transformam, de fato, a rotina das áreas de negócio.
Equilibrar ambos é essencial para que a organização compreenda, na prática, a importância da Governança de Dados e perceba como ela contribui tanto para a operação quanto para iniciativas estratégicas e mais avançadas, como casos de uso de Inteligência Artificial, que dependem de dados confiáveis, auditáveis e bem compreendidos. Em outras palavras, essa é a resposta concreta ao questionamento sobre o que se ganha com um Programa de Governança de Dados na era da IA.
A importância das pequenas entregas
A necessidade de comprovar o valor do programa de Governança de Dados é contínua. Por isso, uma característica comum nas empresas que já possuem programas maduros e consistentes é a capacidade de manter uma rotina de entregas rápidas, sabendo dosar adequadamente os “pilares” e as “pontes”.
Nas etapas iniciais da implantação, é natural que o equilíbrio pese mais para as iniciativas estruturantes. Afinal, nenhuma ponte se sustenta sem pilares sólidos. Contudo, à medida que o programa avança, essa relação tende a se estabilizar. Quando atinge patamares mais elevados de maturidade, o número de pontes passa a ser maior, algumas delas não mais focadas apenas em resolver dores do negócio, mas em habilitar inovações orientadas por dados e IA.
E qual a fórmula mágica para equilibrar essas iniciativas? Não existe, mas ainda assim, algumas diretrizes práticas ajudam muito.
Nos primeiros meses, quase não há entregas de valor, por isso, é fundamental que boa parte das iniciativas estruturantes sejam concluídas dentro desse intervalo, em média de seis meses, que é o tempo máximo que as áreas de negócio toleram esperar para ver resultados concretos, desde que entendam claramente que uma ponte só existe porque antes foram construídos os pilares. Depois, é recomendado manter uma proporção inicial de duas ou três ações estruturantes para cada entrega de valor, reduzindo esse equilíbrio à medida que o programa amadurece, até chegar ao ponto em que as melhorias passam a ser priorizadas porque o valor da governança já está claro.
Quanto à pergunta principal, que é como esses benefícios podem sensibilizar o C-Level e quais fatores esses executivos consideram na hora de decidir patrocinar uma iniciativa, a resposta é: traga evidências claras de que o investimento trará retorno real para a organização.
Ter clareza na jornada de dados, com entregas bem definidas e alinhadas à estratégia corporativa e de IA, é essencial para evitar gargalos e esforços desnecessários. Some isso à evolução baseada em valor, usando a lógica de pilares e pontes, para comprovar a consistência do programa. Trabalhar com demandas menores também é importante, pois reduz riscos e incertezas, permitindo mais agilidade para habilitar e ajustar casos de uso de IA. A cada entrega bem-sucedida reforce a solidez da iniciativa, cujo ponto crucial é demonstrar que a Governança de Dados gera valor real e é indispensável para escalar soluções de IA na empresa.
Os programas de Governança de Dados não precisam começar com grandes promessas, mas sim com pequenas entregas que provam seu valor ao longo da jornada. O equilíbrio entre pilares e pontes, combinado com a disciplina das pequenas entregas, transforma a Governança de Dados em um mecanismo prático de geração de valor, suportando as ambições da IA nas organizações.
(*) CEO da BLR Data.


