
César Abramides (*)
O mundo do trabalho vive uma transformação sem precedentes. A inteligência artificial está redefinindo funções, novas profissões surgem em ritmo acelerado e os modelos híbridos mudaram a forma como as pessoas se relacionam com suas carreiras. Trocar de empresa, de área ou até de profissão tornou-se parte da trajetória de muitos profissionais.
Os números ajudam a explicar esse cenário. Segundo a Gallup, apenas 21% dos trabalhadores no mundo se declaram engajados em suas atividades. Já estudos recentes da Deloitte mostram que desenvolvimento profissional, qualidade da liderança e equilíbrio entre vida pessoal e trabalho estão entre os fatores mais valorizados pelas novas gerações.
Diante desse contexto, uma pergunta aparece com frequência nas discussões sobre gestão de pessoas: o que realmente faz um profissional escolher permanecer em uma organização?
Depois de mais de duas décadas atuando na área de pessoas e passando por empresas de diferentes portes, segmentos e culturas, cheguei a duas conclusões. A primeira é que não existe uma resposta única. A segunda é que não existe uma empresa perfeita. Existem organizações que fazem mais sentido para determinados momentos da vida e da carreira.
No início da trajetória profissional, muitas pessoas buscam aprendizado acelerado, exposição a desafios e oportunidades para ampliar repertório. Em outras fases, passam a valorizar estruturas mais robustas, acesso a especialistas, experiências internacionais ou projetos de maior complexidade. Com o tempo, outras prioridades entram na equação, como autonomia, qualidade das relações e equilíbrio.
Por isso, vejo com cautela as discussões que tentam explicar retenção apenas por remuneração ou benefícios. Esses fatores são importantes e precisam ser competitivos. No entanto, raramente explicam sozinhos por que uma pessoa decide construir uma trajetória mais longa em uma organização.
A experiência mostra que existe uma diferença importante entre criar iniciativas para as pessoas e construir ambientes nos quais elas realmente desejam permanecer. Nem tudo que influencia uma decisão de carreira pode ser medido por indicadores ou relatórios. Algumas das razões mais relevantes continuam sendo profundamente humanas.
Há um aspecto que considero fundamental nessa discussão: o trabalho sempre foi uma atividade coletiva. Construímos relações, aprendemos com outras pessoas e passamos grande parte da nossa vida convivendo em grupos. O ambiente profissional é um dos principais espaços onde essas conexões acontecem.
As pessoas tendem a permanecer quando encontram um ambiente onde podem ser elas mesmas, contribuir com suas ideias, aprender, desenvolver relações de confiança e sentir que fazem parte de algo maior do que sua própria função. Quando existe esse sentimento de pertencimento, o trabalho deixa de ser apenas um lugar onde cumprimos tarefas. Ele passa a ser um espaço onde construímos histórias, relações e uma parte importante da nossa trajetória profissional.
Ao observar profissionais que permanecem por muitos anos em uma organização, alguns padrões costumam aparecer. São pessoas que confiam em suas lideranças, enxergam perspectivas reais de crescimento e sentem que suas contribuições são valorizadas. Trabalham em ambientes onde a colaboração é mais forte do que a competição interna e percebem coerência entre aquilo que a empresa comunica e aquilo que efetivamente prática.
As discussões sobre gerações ganharam relevância nos últimos anos e, sem dúvida, existem mudanças importantes de comportamento e expectativa. Os profissionais mais jovens valorizam autonomia, flexibilidade e desenvolvimento. Querem participar mais das decisões, compreender o impacto do próprio trabalho e possuem mais liberdade para escolher os caminhos que desejam seguir.
Apesar das diferenças, existem pontos em comum entre todas as gerações. As pessoas querem aprender, crescer, ser reconhecidas e trabalhar em ambientes respeitosos, com boas lideranças e relações de confiança. Em essência, as expectativas mudaram menos do que imaginamos. O que mudou foi a liberdade de escolha.
A tecnologia continuará transformando o mercado de trabalho. Novas competências serão exigidas e as carreiras seguirão trajetórias cada vez menos lineares. As empresas continuarão investindo em inovação, produtividade e desenvolvimento de talentos. Tudo isso será importante para a construção das organizações do futuro.
Independentemente das transformações que virão, acredito que a pergunta que cada profissional faz a si mesmo continuará sendo bastante simples: este é um lugar onde vale a pena investir parte da minha história?
Quando a resposta é positiva, a permanência deixa de ser consequência de um contrato ou de uma oportunidade financeira. Ela se transforma em uma escolha construída diariamente a partir das experiências, das relações e do significado que o trabalho tem para cada pessoa.
(*) Sr. Director of Global People Partnerships & Performance da SVP Worldwide, líder global das marcas Singer, Husqvarna Viking e Pfaff.
Profissões que estão em alta e devem permanecer existindo – Jornal Empresas & Negócios


