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O jogo mudou e as regras da cibersegurança também

em Destaques
quinta-feira, 06 de agosto de 2026

Rafael Araújo Silva (*)

Em abril de 2026, a Anthropic anunciou o Project Glasswing, uma iniciativa que reúne algumas das maiores empresas de tecnologia do mundo para identificar e corrigir vulnerabilidades críticas utilizando inteligência artificial avançada. O anúncio, por si só, já seria relevante. Mas o que realmente chamou a atenção foi a tecnologia por trás do projeto: o Claude Mythos Preview, um modelo de IA tão poderoso na descoberta e exploração de falhas que a própria Anthropic decidiu não o disponibilizar publicamente.

O nome Glasswing faz referência à borboleta Greta oto, conhecida por suas asas transparentes. A escolha não é aleatória. Vulnerabilidades que permaneceram invisíveis durante anos agora podem ser encontradas em questão de dias. O que estava escondido tornou-se transparente.

Durante décadas, a segurança digital operou com uma premissa confortável: existia um intervalo entre a descoberta de uma vulnerabilidade e sua exploração por criminosos. Esse período permitia investigar, priorizar e corrigir falhas antes que elas fossem amplamente utilizadas em ataques. Essa janela praticamente desapareceu.

Um bug presente no OpenBSD permaneceu oculto por 27 anos antes de ser identificado pelo Mythos Preview, um problema que resistiu a duas décadas e meia de auditoria humana em um dos sistemas operacionais mais escrutinados do mundo, resolvido por um processo de busca automatizado a uma fração do custo de uma auditoria equivalente. A Cisco, parceira do projeto Glasswing, reportou que escaneou 1,8 bilhão de linhas de código em oito semanas, um trabalho que levaria oito anos por métodos tradicionais. A Palo Alto, também integrante do projeto, encontrou 75 falhas em seus produtos em um mês, mais de sete vezes sua média histórica. Outro exemplo de impacto sobre o assunto foi o caso da Mozila que corrigiu 423 falhas de segurança no Firefox em abril (após o início do projeto), contra 76 em março, o que representa quase 20 vezes sua média mensal de 2025. Para fechar esses exemplos de contexto, o relatório da CrowdStrike traz o outro lado da mesma moeda, onde o breakout time médio (do acesso inicial à movimentação lateral) caiu para 29 minutos em 2025, com o caso mais rápido em apenas 27 segundos, e ataques com uso de IA cresceram 89% no período.

Esses números, vindos de fontes distintas, indicam uma mudança estrutural na forma como vulnerabilidades são encontradas, analisadas e potencialmente exploradas: estamos entrando na era da IA ofensiva.
Até pouco tempo atrás, a descoberta de vulnerabilidades dependia fortemente da capacidade humana. Equipes especializadas realizavam pesquisas, auditorias e testes que consumiam semanas ou meses de trabalho. Agora, modelos avançados conseguem analisar milhões de linhas de código, identificar padrões complexos, correlacionar comportamentos e sugerir formas de exploração em velocidades impossíveis para qualquer equipe humana.

Essa aceleração não fica restrita à defesa. Em novembro de 2025, a Anthropic identificou e interrompeu uma campanha de ciberespionagem patrocinada por um Estado, na qual agentes de IA executaram de forma autônoma entre 80% e 90% das etapas táticas de um ataque completo, do reconhecimento à exfiltração de dados. É um caso distinto do Glasswing (defesa colaborativa versus uso ofensivo malicioso), mas que aponta na mesma direção, já confirmada pelos números de breakout time da CrowdStrike: essa realidade não é mais exceção isolada.

O impacto para as empresas é direto. Primeiro, porque o Glasswing dificilmente permanecerá uma exclusividade por muito tempo. É razoável supor que capacidades equivalentes já estejam em desenvolvimento em outros laboratórios de IA ao redor do mundo, incluindo iniciativas open source e projetos de empresas chinesas, ainda que, até o momento, não haja confirmação pública detalhada do estágio desses esforços. Quando capacidades semelhantes chegarem ao mercado aberto, qualquer ator mal-intencionado terá acesso a um poder de descoberta e exploração de vulnerabilidades hoje concentrado nas maiores organizações de tecnologia do mundo. Segundo, porque a própria adoção de agentes de IA cria uma nova superfície de ataque. Com técnicas como prompt injection, invasores podem manipular agentes corporativos para executar ações não autorizadas. Em um cenário extremo, um único comando malicioso pode transformar um assistente de IA em um insider autônomo, capaz de acessar informações sensíveis, exfiltrar dados ou até comprometer mecanismos críticos de recuperação, como backups.

À medida que a IA acelera a descoberta de falhas, o volume de CVEs continuará crescendo em todos os setores. Empresas que ainda operam com processos lentos de gestão de vulnerabilidades encontrarão crescente dificuldade para acompanhar esse ritmo. Os testes de invasão anuais ou semestrais continuam importantes, mas já não são suficientes isoladamente. Monitoramento contínuo, validação constante da superfície de ataque, automação de processos de correção e uso de inteligência artificial na defesa tornam-se elementos obrigatórios da estratégia de segurança.

O Project Glasswing não é apenas um projeto de pesquisa colaborativa. É um sinal de que o setor de segurança precisará operar em um ritmo que até agora era privilégio dos atacantes. Não é alarmismo. São fatos. E o primeiro passo é entender onde sua organização está agora, revisitando quatro frentes básicas:

  1. Inventário e mapeamento de ativos: você sabe o que está exposto? Sistemas legados, aplicações esquecidas e serviços publicados desnecessariamente são os alvos preferidos. Antes de qualquer coisa, saiba o que você tem.
  2. Mapeamento de vulnerabilidades e priorização: com o inventário em mãos, rode um scan atualizado. Não apenas CVEs críticos: pense no contexto, o que está exposto à internet, o que tem acesso a dados sensíveis e priorize por risco real, não apenas pela pontuação mecânica de CVSS.
  3. Redução de superfície de ataque: o que pode ser desligado ou ter acesso restrito imediatamente? Cada serviço publicado desnecessariamente é uma porta aberta. Reduza antes que alguém bata nela com IA.
  4. Revisão de regras, acessos e controles: com a iminência de ataques acelerados por IA, revisitar regras de firewall, acessos privilegiados e controles de identidade não é opcional. Um acesso que “nunca foi usado” pode ser o próximo vetor.

Gestão de vulnerabilidades não é um projeto pontual, é um processo contínuo. E a frequência precisa aumentar agora. A pergunta que cada CISO deveria estar respondendo não é se a organização está preparada para uma vulnerabilidade conhecida, mas quanto tempo levaria para detectar uma que ainda não existe no CVE.

(*) Diretor da Teltec Solutions.

Desafios e necessidades de cibersegurança para pequenas e médias empresas | Jornal Empresas & Negócios