
Tiago Garbim (*)
Durante os últimos dois anos, a Inteligência Artificial foi tratada, principalmente, como uma ferramenta de produtividade. Empresas passaram a utilizar copilotos para escrever e-mails, gerar códigos, produzir apresentações, resumir documentos e automatizar tarefas repetitivas. A pergunta predominante era simples: como fazer mais em menos tempo?
Essa discussão continua relevante, mas começa a dar sinais de esgotamento. Recentemente, durante o AI-First Leadership, encontro promovido pela Wevy na 2ª edição da Confraria Coffee & Tech — comunidade que reúne executivos e líderes de tecnologia para discutir tendências, inovação e desafios estratégicos — ficou evidente que uma nova agenda está surgindo: mais do que aprender a utilizar ferramentas de IA, eles querem entender como construir empresas capazes de incorporar inteligência em sua própria operação.
O perfil do público presente deixa essa mudança ainda mais clara. O evento reuniu aproximadamente quarenta líderes de empresas de diferentes segmentos — entre CEOs, CTOs, CIOs, COOs, CFOs, Heads de Tecnologia, diretores comerciais, especialistas em infraestrutura, inovação e arquitetura corporativa. Estamos falando dos profissionais responsáveis pelas decisões que moldam a estratégia das organizações.
Mas talvez o dado mais interessante tenha surgido antes mesmo do primeiro painel. Durante a inscrição, fizemos uma pergunta aos participantes:
“O que você construiria primeiro com uma plataforma de Inteligência Artificial capaz de conectar qualquer fonte de dados?”
A resposta revelou muito sobre a evolução da maturidade do mercado. Ao contrário do que vimos nos últimos anos, poucos direcionaram suas expectativas para aplicações voltadas à produtividade individual. As prioridades mais citadas foram aplicações inteligentes para clientes, automação de processos, centrais de conhecimento corporativo, dashboards inteligentes, assistentes internos e atendimento.
Esse resultado evidencia uma mudança importante de mentalidade. A conversa deixou de ser sobre produtividade pessoal e passou a ser sobre transformação organizacional. A próxima vantagem competitiva não será ter IA. Será operar como uma empresa AI-First.
Durante muito tempo acreditou-se que bastava incorporar ferramentas de Inteligência Artificial ao dia a dia das equipes para capturar ganhos relevantes de eficiência. Sem dúvida, isso gera valor. Mas representa apenas o primeiro estágio dessa transformação.
A próxima etapa exige uma mudança muito maior: deixar de enxergar a IA como uma ferramenta e começar a tratá-la como parte da infraestrutura da empresa. Essa foi justamente uma das principais provocações do AI-First Leadership.
A Inteligência Artificial precisa funcionar como uma camada permanente de inteligência, presente em cada processo, decisão e workflow da organização.
Quando isso acontece, a empresa deixa de utilizar IA apenas para executar tarefas mais rapidamente e passa a criar mecanismos capazes de aprender continuamente com tudo o que acontece dentro da operação.
Dados deixam de ser arquivos e passam a ser conhecimento. Essa mudança altera completamente a forma como enxergamos dados corporativos.
Durante anos falamos que “dados são o novo petróleo”. Hoje, talvez seja mais correto dizer que dados só geram valor quando conseguem alimentar continuamente processos inteligentes. Isso significa registrar interações, organizar informações, conectar diferentes sistemas e criar ciclos permanentes de retroalimentação.
É o conceito conhecido como Closed Loop, no qual cada interação gera novos aprendizados que retornam ao próprio sistema, tornando os próximos processos mais inteligentes do que os anteriores.
Não basta automatizar um atendimento. Não basta gerar um relatório automaticamente. E não basta responder perguntas com um chatbot. O verdadeiro diferencial competitivo estará na capacidade de transformar cada interação em conhecimento para toda a organização.
Em vez de manter informações dispersas entre planilhas, e-mails, documentos e sistemas isolados, uma empresa preparada para a era da IA estrutura seus processos para que praticamente todo conhecimento corporativo possa ser consultado, relacionado e utilizado por pessoas e agentes inteligentes.
Isso muda completamente o papel da tecnologia. A IA deixa de responder apenas perguntas feitas pelos usuários e passa a compreender contexto, identificar padrões, apoiar decisões, antecipar problemas e sugerir caminhos de forma contínua.
É uma mudança que vai muito além da automação. Estamos falando de criar empresas capazes de aprender. Ou seja, a liderança precisa mudar antes da tecnologia.
Talvez a principal conclusão do encontro seja justamente esta: a transformação provocada pela Inteligência Artificial não começa na escolha do melhor modelo de linguagem, nem na contratação da ferramenta mais moderna. Ela começa na liderança.
Os executivos precisam redesenhar processos, fortalecer a governança dos dados, criar uma cultura orientada ao aprendizado contínuo e preparar suas organizações para operar em um ambiente onde pessoas e inteligência artificial trabalharão de forma integrada.
Nesse contexto, a pergunta deixa de ser: “Como meus colaboradores podem usar IA?”
E passa a ser: “Como minha empresa pode aprender continuamente com tudo o que acontece dentro dela?”
Essa talvez seja a principal diferença entre empresas que apenas utilizam Inteligência Artificial e aquelas que realmente se tornam organizações AI-First.
O debate promovido mostrou que essa mudança já começou. E o fato de ela estar sendo conduzida por CEOs, CIOs, CTOs e outros líderes de negócio indica que a Inteligência Artificial deixou de ser apenas uma pauta tecnológica para se consolidar como um tema estratégico para a competitividade das empresas nos próximos anos.
(*) Founder & CEO da Wevy, empresa que lidera desde 2013, conduzindo a companhia por mais de uma década com foco em inovação e transformação digital. Empreendedor nato, também atua como Idea Builder e Founder do Hangar Startups, além de investir em novos projetos e startups.
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