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Economia circular ganha tração no Brasil e muda a lógica de criação de valor nas empresas

em Destaques
quarta-feira, 04 de março de 2026

Iniciativas vão além da reciclagem e apostam no redesenho de sistemas produtivos para reduzir custos, inovar e gerar vantagem competitiva

A economia circular começa a deixar de ocupar um espaço periférico nas estratégias de sustentabilidade para ganhar status de agenda central de negócios entre empresas brasileiras. Diante do aumento da pressão climática, da escassez de recursos e da busca por eficiência operacional, companhias de diferentes setores passaram a olhar para resíduos não apenas como passivos ambientais, mas como fontes potenciais de receita, inovação e competitividade.

O movimento ocorre em um país que ainda enfrenta desafios estruturais na gestão de resíduos. O Brasil produz cerca de 82 milhões de toneladas de resíduos sólidos urbanos por ano, segundo o Sistema Nacional de Informações sobre Saneamento (SNIS), mas recicla apenas aproximadamente 4% desse volume. Em economias desenvolvidas, a taxa supera 30%, o que evidencia tanto o atraso quanto a oportunidade econômica associada ao reaproveitamento de materiais e à reorganização das cadeias produtivas.

Mais do que ampliar índices de reciclagem, a mudança em curso envolve o redesenho de sistemas inteiros de produção e consumo. Empresas passam a repensar desde a concepção dos produtos até a destinação pós-uso, incorporando princípios de durabilidade, reutilização e reaproveitamento de insumos como parte da estratégia corporativa. A circularidade, nesse contexto, deixa de ser um projeto isolado de sustentabilidade e passa a orientar decisões estruturais relacionadas a custos, inovação e gestão de riscos.

Para Humberto Matsuda, membro do Comitê de Investimentos da Kamay Ventures, o avanço da circularidade está diretamente ligado à capacidade de redesenho sistêmico das empresas. “O ganho real não está apenas em reciclar mais, mas em estruturar modelos de negócio que eliminem desperdícios desde a origem e transformem eficiência ambiental em vantagem competitiva”, pondera.

Na prática, isso se traduz em iniciativas que vão do desenvolvimento de embalagens regenerativas ao reaproveitamento de resíduos industriais, do uso de matérias-primas de base biológica à criação de produtos pensados para retornar ao ciclo produtivo após o consumo. O objetivo é substituir o modelo linear de extrair, produzir e descartar por fluxos circulares capazes de reduzir desperdícios e ampliar a eficiência no uso de recursos, ao mesmo tempo em que abrem novas frentes de negócio.

A mudança também tem alterado a forma como investidores avaliam oportunidades. Para Matsuda, a economia circular passou a ser interpretada como um vetor de resiliência empresarial. “A circularidade não é mais uma agenda paralela. Ela redefine como o valor é criado dentro das empresas, porque melhora a eficiência do uso de recursos e estimula modelos de negócio mais sustentáveis economicamente”, afirma.

Segundo ele, a agenda climática acelerou a maturação desse olhar no mercado de capitais. “Durante muito tempo, a sustentabilidade foi percebida como custo adicional. Hoje, empresas que redesenham seus sistemas produtivos conseguem capturar ganhos financeiros concretos, seja pela redução de desperdícios, seja pela criação de novas receitas”, diz.

Especialistas apontam que o avanço da economia circular depende menos de soluções tecnológicas isoladas e mais da coordenação entre diferentes atores econômicos. Parcerias entre indústrias, startups, centros de pesquisa e investidores têm viabilizado cadeias de reaproveitamento antes inexistentes e novos arranjos de incentivo capazes de tornar essas iniciativas escaláveis.

Esse redesenho também reposiciona o consumidor dentro do sistema produtivo, que passa a participar de programas de devolução, reutilização e consumo consciente. Empresas que conseguem integrar essas etapas tendem a combinar ganhos reputacionais com eficiência operacional, reforçando a circularidade como estratégia de longo prazo.

Para Matsuda, o momento atual representa uma inflexão na agenda de inovação corporativa. “A economia circular amplia o próprio conceito de inovação. Não se trata apenas de desenvolver novos produtos, mas de repensar processos, cadeias e incentivos para gerar valor duradouro para negócios, sociedade e planeta”, afirma.

À medida que a circularidade se consolida como agenda econômica, o Brasil começa a se posicionar como um campo relevante para experimentação de modelos sustentáveis em mercados emergentes, apoiado por um ecossistema crescente de startups, investidores e grandes empresas dispostos a transformar desafios ambientais em oportunidades de crescimento.

Esses temas estarão em debate no painel “Economia Circular – Do Resíduo ao Valor – Reinventando Valor na Era do Clima”, que integra a programação do Kamay Code, evento da Kamay Ventures, marcado para 18 de março, no Museu do Amanhã, no Rio de Janeiro. O encontro reunirá investidores, startups e lideranças do setor para discutir o que já funciona no mercado e os próximos passos para a consolidação dessas soluções. Mais informações no site do Kamay Code.