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Do papel à tela: como preparar ilustradores infantis para um mercado em transição digital

em Destaques
sexta-feira, 28 de novembro de 2025

Cultura da velocidade impacta a profundidade criativa e compromete o olhar autoral na produção de ilustração para crianças

Enquanto o tempo médio que crianças passam em frente às telas aumenta em todo o mundo, cresce também a preocupação com os impactos dessa exposição sobre o desenvolvimento emocional, cognitivo e social na infância. Segundo um estudo publicado no National Institutes of Health (NIH), o uso excessivo de dispositivos digitais está associado a déficits de linguagem, atenção e habilidades motoras em crianças pequenas. Esse cenário reacende debates sobre o papel das imagens que as cercam e especialmente, sobre o poder do desenho feito à mão na construção de vínculos mais profundos e experiências sensoriais mais ricas.

Para Guilherme Bevilaqua, conhecido como Prof. Laqua, ilustrador com 27 anos de carreira e referência na formação de novos artistas no Brasil, é urgente repensar como os livros e as imagens são produzidos para o público infantil. “Vivemos um momento de excesso visual e escassez de afeto nas imagens. As crianças recebem estímulos visuais prontos, pasteurizados e muitas vezes vazios de intenção. A ilustração feita à mão devolve presença, nuance e calor”, afirma o ilustrador.

Ao longo dos últimos anos, Laqua tem se dedicado a fortalecer a produção artística autoral como caminho para devolver sentido às narrativas visuais na infância. Para ele, não se trata apenas de desenhar com lápis e tinta, mas de transmitir camadas subjetivas, textura e emoção. “A ilustração manual é quase um gesto de resistência afetiva em um mundo acelerado. Quando o traço é vivo, ele respira junto com o leitor e cria uma conexão silenciosa, mas potente”, explica.

O movimento por uma arte mais consciente e autoral também está ganhando espaço na formação de novos profissionais. Em alguns cursos voltados à ilustração, o foco tem sido incentivar a criação de personagens próprios, livros completos e estilos que fujam das tendências visuais massificadas que dominam o ambiente digital. A ideia é resgatar o protagonismo do artista e valorizar a singularidade de cada traço como forma de comunicar algo único.

Esse resgate passa, ainda, por encontros presenciais e experiências reais de criação. Eventos como oficinas de aquarela e rodas de conversa entre artistas têm se mostrado fundamentais para fortalecer o vínculo entre ilustradores, editores e leitores. “O retorno ao papel, ao olhar olho no olho, ao tempo da criação manual, é uma escolha intencional. Não é nostalgia: é lucidez”, destaca Laqua.

Em tempos de imagens geradas por inteligência artificial e conteúdos automatizados, o traço humano se reafirma como canal de expressão insubstituível, especialmente quando o público-alvo está em fase de formação.

Nesse contexto, a missão do ilustrador infantil se amplia: não é só sobre colorir páginas, mas sobre moldar imaginários, desenvolver repertórios e criar memórias afetivas visuais duradouras. “Quem trabalha com imagem para criança precisa entender que cada traço é uma conversa. E que essa conversa pode marcar uma vida inteira”, conclui Guilherme Bevilaqua.