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Desafios e oportunidades para lideranças

em Destaques
sexta-feira, 26 de dezembro de 2025

Fernando Moulin (*)

A sociedade atravessa uma transformação sem precedentes, marcada pela aceleração tecnológica e pelo impacto avassalador da inteligência artificial (IA). O debate sobre a chamada era pós-digital e seus desdobramentos vem sendo conduzido por especialistas que viveram de perto processos de transformação digital em grandes organizações, e agora buscam provocar líderes a refletirem sobre os desafios de atuar em um mundo em “permacrise”.

O conceito de permacrise descreve um cenário em que crises não se apresentam como eventos isolados, mas como uma sucessão contínua. Três fatores concentram essa realidade: o pós-COVID-19, que deixou marcas profundas em saúde e sociedade; os conflitos geopolíticos globais, que alimentam instabilidade política e econômica; e as mudanças climáticas, resultado da ação humana em escala planetária.

Esse ambiente exige de líderes um modelo de gestão adaptativa, com decisões rápidas e flexíveis. O avanço da tecnologia intensifica a pressão, já que a velocidade das mudanças é exponencial. Da economia física, passando pela era da digitalização, chegou-se à quarta revolução industrial, na qual a IA assume o papel de orquestrador, automatizando processos e influenciando escolhas em tempo real.

Diversos acontecimentos históricos mostram como a complacência em momentos de prosperidade pode ser fatal.

Um exemplo é o ciclo da borracha no Brasil, em que a ausência de investimento em inovação levou à perda de relevância internacional após a ação estratégica britânica. Outro caso é a revolução do automóvel em Nova York, quando em menos de uma década as ruas passaram de abarrotadas de carruagens a dominadas por carros, transformando radicalmente a vida urbana.

Esses episódios reforçam a ideia de que as disrupções são inevitáveis e que a inovação depende da capacidade de questionar certezas. Líderes que não cultivam dúvidas tendem a perder espaço em cenários de mudança acelerada.

A Inteligência Artificial entre fato e fake
No debate sobre a IA, surge a comparação com o metaverso e outras tecnologias que seguiram o Hype Cycle da Gartner, passando pelo pico de expectativas e pelo vale da desilusão. A IA generativa, no entanto, já se mostra mais enraizada.

Ela não é apenas uma promessa, mas um fato presente no cotidiano, desde aplicativos de trânsito até recomendações de plataformas digitais. Ainda assim, levanta questões éticas, como a amplificação de vieses, os riscos de alucinação, os impactos sobre empregos e os dilemas relacionados à saúde mental em uma sociedade cada vez mais conectada e solitária.

Os riscos da IA se distribuem em várias dimensões. A privacidade é uma delas, diante da coleta massiva de dados biométricos e de geolocalização. Outro ponto crítico é o viés algorítmico, que pode reproduzir preconceitos. No ambiente corporativo, há preocupação com propriedade intelectual e confidencialidade, uma vez que modelos de IA dependem de grandes volumes de dados.

O impacto no mercado de trabalho é outro desafio central. A automação promete ganhos de produtividade, mas impõe uma necessidade urgente de reskilling. Novas funções surgem, enquanto outras desaparecem, exigindo visão estratégica e políticas públicas de adaptação.

Estamos de fato em meio a uma bolha de IA, que ao estourar gerará a nova crise da economia global? NVidia e seus valuations extraordinários fazem ou não sentido? A novidade desta semana (dia?) é mesmo tão boa assim?

Apesar dessas e de outras preocupações, o horizonte de oportunidades é vasto. Empresas que não incorporarem a IA correm o risco de perder relevância, uma vez que o valuation sem IA tende a ser desvalorizado.

Entre os exemplos citados, destacam-se o varejo, com experiências de hiperpersonalização nas jornadas, eficiência ampliada na gestão de estoques e perdas e na capacitação de colaboradores em escala; o marketing, com campanhas desenvolvidas em prazos cada vez menores, em níveis de individualização elevadíssimos; a logística, com drones e automação de entregas; as finanças, que já vivenciam inovações como o Pix e o Drex; e a saúde, com avanços em telemedicina e robótica cirúrgica.
No agronegócio e no meio ambiente, soluções inteligentes já otimizam recursos e reduzem perdas. A prevenção de fraudes, por sua vez, é um dos setores em que a IA se mostra mais avançada, em resposta ao uso crescente da tecnologia por fraudadores.

Caminhos para a liderança na sociedade 5.0
Diante desse contexto, as lideranças precisam se reposicionar. Entre os caminhos propostos, destacam-se a conexão entre IA e propósito de negócio, a prática de testar tecnologias de ponta mesmo sem maturidade plena e o uso do storytelling como ferramenta de engajamento.

A visão de uma Sociedade 5.0, em que tecnologias servem ao bem-estar humano, exige líderes dispostos a atuar como early adopters, com clareza de propósito e atenção ética. O maior risco é responder à turbulência com lógica do passado, perdendo a chance de guiar suas equipes para o futuro.

Portanto, a era pós-digital não é uma projeção distante, mas uma realidade concreta. A inteligência artificial já molda decisões e comportamentos, e seu impacto só tende a crescer. A liderança que conseguir equilibrar inovação, ética e propósito estará mais preparada para prosperar em um cenário de crises permanentes e oportunidades inéditas.

Como você está aplicando e pretende aplicar a IA em seu negócio ao longo de 2026?

(*) CEO & Founder da Polaris Group, aceleradora estratégica de negócios, professor e palestrante internacional, especialista em transformação digital e experiência do cliente e coautor dos best-sellers “Inquietos por natureza”, “Você brilha quando vive sua verdade” e “Foras da curva” (todos da Editora Gente, 2024) – E-mail: [email protected].