
Israel Malheiros (*)
O varejo segue entre os principais motores do crédito estruturado no país, mas a forma de financiar o consumo mudou. Nos últimos anos, uma parcela crescente das vendas parceladas deixou de ser organizada apenas como recebível comercial tradicional e passou a ser originada por fintechs, bancos digitais e plataformas de crédito integradas à jornada de compra.
Os dados da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) mostram que as carteiras ligadas ao comércio cresceram de R$92,1 bilhões em março de 2023 para R$138,8 bilhões em março de 2026. No mesmo período, as carteiras financeiras — que incluem operações como CCBs, crédito direto ao consumidor e Buy Now, Pay Later — avançaram de R$96,3 bilhões para R$248,6 bilhões. Ou seja, a forma como o crédito chega ao consumidor foi alterada.
Em muitas compras, especialmente no ambiente digital, o parcelamento deixou de depender exclusivamente da estrutura do varejista. A oferta pode estar integrada ao checkout por meio de um parceiro financeiro, conectada a uma fintech ou vinculada a uma plataforma especializada. Para quem compra, isso costuma aparecer como mais opções de pagamento e maior agilidade na aprovação.
Em um país onde o parcelamento ainda é determinante para o acesso a bens de maior valor e para o planejamento financeiro das famílias, ampliar essas alternativas influencia diretamente a dinâmica de consumo. Mais canais de crédito podem ampliar acesso, acelerar decisões de compra e permitir que consumidores encontrem condições mais adequadas ao seu perfil.
No varejo, com mais opções de financiamento, empresas reduzem a dependência de estruturas próprias ou de linhas bancárias concentradas e ganham flexibilidade para sustentar vendas parceladas. Isso é relevante para negócios que precisam preservar caixa e manter capacidade de venda em períodos de maior restrição de crédito.
Esse avanço também fortalece a conexão entre varejo e mercado de capitais. Quando operações de consumo passam a circular em estruturas como FIDCs, investidores se tornam parte mais próxima do financiamento da atividade econômica. A disponibilidade de crédito deixa de depender apenas da relação direta entre empresa e banco e passa a envolver uma cadeia mais ampla de participantes.
Essa integração exige mais coordenação operacional. Com originadores, instituições financeiras, registradoras e plataformas atuando ao mesmo tempo, cresce a necessidade de troca de dados, padronização e acompanhamento das operações ao longo de toda a estrutura.
O crédito continua sendo uma peça central do consumo brasileiro. O que vem mudando é a infraestrutura por trás dele e essa reorganização tende a influenciar cada vez mais o acesso ao financiamento, a operação do varejo e a circulação de capital na economia.
(*) COO da Vertrau Tecnologia.
Bancarização: a terceira onda do ecossistema de fintechs – Jornal Empresas & Negócios
