
Rodolfo Cassorillo (*)
Quando o consumidor encontra uma promoção na Black Friday, dificilmente imagina que aquela compra começou a ser preparada meses antes. A percepção é de que novembro representa o momento decisivo para o varejo, mas a realidade é outra: as empresas que alcançam os melhores resultados costumam iniciar sua preparação ainda em agosto.
A Black Friday se transformou em um grande teste da maturidade operacional das empresas. O sucesso da data depende menos das campanhas de marketing e muito mais da capacidade de integrar tecnologia, logística, estoque e sistemas críticos antes que o aumento da demanda coloque toda a operação à prova. Essa antecipação é ainda mais relevante diante das projeções de crescimento do comércio eletrônico. Segundo a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (ABComm), o e-commerce brasileiro deverá movimentar R$ 258,4 bilhões em 2026, consolidando a Black Friday como um dos momentos de maior pressão sobre toda a infraestrutura tecnológica do varejo, e o primeiro desafio começa muito antes das vendas: a cadeia de suprimentos.
Grande parte dos produtos comercializados durante a Black Friday é importada, principalmente da Ásia. Entre fabricação, transporte marítimo, desembaraço aduaneiro e distribuição nacional, o processo pode levar de 60 a 100 dias. Em um cenário de alta demanda global, qualquer atraso na tomada de decisão reduz significativamente a capacidade de reposição de estoque. Mas o impacto não termina na chegada da mercadoria ao centro de distribuição. Atacadistas, distribuidores, operadores logísticos e varejistas precisam trabalhar de forma sincronizada para que o produto esteja disponível exatamente quando o consumidor decidir comprar.
Nesse processo, a tecnologia se torna parte da operação logística. Sistemas de gestão, rastreabilidade por código de barras, integração entre estoques e automação dos centros de distribuição fazem diferença na velocidade com que a mercadoria percorre toda a cadeia. O segundo ponto crítico está na estabilidade dos sistemas.
Empresas maduras costumam adotar, semanas antes da Black Friday, um período conhecido como code freeze, no qual alterações estruturais deixam de ser implementadas nos ambientes de produção. A lógica é simples: quanto menos mudanças durante o período de maior demanda, menor o risco de indisponibilidades. Isso significa que integrações entre ERP, plataforma de e-commerce, gateways de pagamento, sistemas fiscais, marketplaces e operadores logísticos precisam estar concluídas, testadas e homologadas ainda nos meses anteriores. Esperar outubro ou novembro para finalizar projetos é assumir riscos desnecessários justamente quando qualquer falha pode representar milhares de pedidos perdidos.
Outro aspecto frequentemente negligenciado está na emissão de documentos fiscais. Em períodos de pico, a comunicação entre os sistemas corporativos e os ambientes da Secretaria da Fazenda pode sofrer instabilidades. Quando isso acontece, muitas empresas precisam operar em contingência para manter as vendas funcionando. O problema não está na contingência em si, que faz parte da operação, mas no fato de que inúmeras organizações só descobrem limitações de desempenho quando já estão processando milhares de pedidos simultaneamente.
Testes de carga, simulações de volume e validação das integrações deveriam fazer parte da rotina de preparação muito antes da data promocional. Além disso, agosto é o momento ideal para revisar regras automatizadas de crédito, políticas comerciais, parametrizações fiscais, limites de estoque e fluxos de aprovação. Em períodos de alta demanda, qualquer configuração inadequada pode bloquear vendas legítimas ou gerar gargalos operacionais difíceis de corrigir em tempo real.
Ou seja, existe uma percepção equivocada de que a Black Friday é vencida pelas empresas que oferecem os maiores descontos. Na prática, ela costuma ser vencida por aquelas que conseguem manter toda a operação funcionando quando o volume de acessos, pedidos e transações multiplica em poucas horas. Quem espera novembro para se preparar, na maioria das vezes, já perdeu a melhor oportunidade de competir.
(*) Especialista em TI aplicada à logística.
Black Friday enfrenta desafios de credibilidade e adesão do consumidor | Jornal Empresas & Negócios


