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A próxima guerra do crédito será pela qualidade dos dados

em Destaques
quarta-feira, 26 de agosto de 2026

Bruno Warmling (*)

O mercado de crédito no Brasil vive, há anos, uma disputa por taxa, prazo e apetite de risco. Bancos, fintechs e gestoras competem por quem oferece a condição mais atrativa para quem precisa antecipar recebíveis ou tomar dinheiro emprestado. Essa é a guerra que todo mundo enxerga. Com a chegada da duplicata escritural, essa disputa ganha uma nova camada, movida por algo menos falado, e que vai determinar quem realmente consegue sustentar taxas competitivas nos próximos anos. A guerra pela qualidade e pela integração dos dados que sustentam cada operação de crédito.

Hoje, boa parte do mercado ainda opera com dados fragmentados. Cada etapa de uma operação, da coleta de informação no ERP da empresa até a checagem em uma registradora, passa por processos manuais, sistemas que não conversam entre si e integrações construídas sob medida por cada participante. Isso custa tempo, custa retrabalho e, principalmente, custa risco. Quanto mais fragmentado o dado, maior a incerteza embutida em cada decisão de crédito, e essa incerteza sempre acaba virando taxa mais alta para quem está do outro lado pedindo dinheiro.

O Brasil avançou bastante na infraestrutura que sustenta esse mercado, com registradoras cada vez mais consolidadas e um movimento forte de digitalização de ativos financeiros. Ainda convivemos, porém, com uma integração desigual entre empresas, fundos, administradores e prestadores de serviço. Uma grande companhia, com ERP robusto e equipe dedicada consegue se conectar de forma mais simples ao ecossistema de fundos e registradoras. Uma empresa de médio porte, na maioria das vezes, ainda depende de processos manuais ou de terceiros para fazer a mesma coisa. Essa diferença de maturidade tem impacto direto no crédito que cada uma consegue acessar e no preço que paga por ele.

A qualidade do dado não pode continuar sendo vista como um detalhe, algo que fica restrito à área de tecnologia ou de compliance de cada instituição. Ela está se tornando o principal fator de precificação de risco no mercado de crédito. Quando um dado está bem registrado, vinculado à nota fiscal que o originou e ao aceite de quem vai pagar aquela operação, o risco de fraude cai, a análise fica mais rápida e a taxa reflete isso. Quando o dado está espalhado, incompleto ou depende de conferência manual, o preço do crédito carrega esse risco embutido, mesmo que a empresa tomadora seja saudável.

Essa disputa por dados de qualidade também redesenha quem ganha vantagem competitiva no mercado. Não será necessariamente o banco com mais capital, nem a fintech com a interface mais bonita, nem a registradora com mais volume registrado. Ganha quem conectar essas pontas com menos fricção, entregando ao gestor de fundo um dado confiável sem que ele precise construir uma integração própria para cada empresa ou cada tipo de operação. Esse movimento tende a beneficiar toda a cadeia. Quem toma crédito ganha com taxa menor. O gestor ganha com um processo mais simples e mais seguro. E o mercado como um todo ganha com menos espaço para fraude e menos retrabalho.

Esse processo, no entanto, não vai acontecer de uma vez só. Já está em curso em ondas. As grandes empresas, com ERPs mais modernos, tendem a nascer conectadas a esse novo ecossistema de forma quase natural. As empresas de médio porte vão precisar de mais apoio para chegar lá, e é justamente nessa faixa que o mercado ainda tem trabalho pela frente, entendendo caso a caso como cada empresa pode se conectar sem recriar, internamente, toda a estrutura que já existe do lado de fora.

A guerra do crédito continuará sendo disputada em taxa e em velocidade de aprovação. Mas quem sustentar essas duas frentes no médio prazo será quem tiver resolvido, antes, o problema do dado. Taxa baixa sem dados confiáveis é insustentável. Velocidade sem rastreabilidade é risco represado. Nessa guerra, quem dominar o dado vai dominar o crédito.

(*) CTO e sócio da Vertrau.

Como a inovação muda a relação de poder no mercado de crédito | Jornal Empresas & Negócios