
Marcella Cunha (*)
Quando falta logística, falta comida, remédio e previsibilidade. A logística brasileira segue um caminho de expansão nos últimos anos, em muito pela demanda do comércio eletrônico, do apetite para a multimodalidade e da utilização cada vez mais estratégica da tecnologia. Além disso, investimentos públicos e privados também contribuem para o cenário positivo. A agenda de 2026 do Ministério dos Transportes, por exemplo, estima 13 novos leilões de rodovias, que devem mobilizar R$ 149,1 bilhões em aportes e alcançar 6.407 quilômetros de corredores logísticos estratégicos, ampliando a capacidade de escoamento da produção, a integração regional e a atratividade do país para o capital privado. O Ministério de Portos e Aeroportos, por sua vez, estima que cerca de 40 ativos sejam levados a leilão ao longo do período, incluindo terminais portuários, aeroportos e, pela primeira vez, um projeto hidroviário estruturado para concessão. O ano eleitoral poderá trazer mudanças, é bom lembrar.
Esses são dados que demonstram a força de um setor que, há muito, deixou de ser considerado parte operacional e se tornou um ponto determinante para o sucesso de companhias dos mais variados segmentos da economia. E é justamente por esse motivo que sempre lutamos por mais segurança jurídica, o reconhecimento regulatório e a consolidação do Operador Logístico como agente essencial na logística nacional, por meio do PL 3757/20.
E vou além: acompanhar de perto os desafios e tendências do setor, atualmente, é um exercício necessário não só para quem atua na área, mas também para aqueles que desejam compreender os rumos do comércio interno e externo e da indústria como um todo.
Quando pensamos nos temas que devem estar sob os holofotes neste e nos próximos anos, os eixos estruturantes, a multimodalidade como política pública é um dos destaques. É preciso buscar, por meio de incentivos, normas, legislações, cada vez mais a integração efetiva entre portos, rodovias, ferrovias e aéreo, com foco em corredores e redução de custos sistêmicos. Somos um país de dimensões continentais, que enfrenta desafios particulares, que exigem soluções próprias.
Não podemos, também, deixar de pensar, que ao longo dos meses a seguir será determinante estar atento aos ajustes contábeis e fiscais dos Operadores Logísticos em tempos de regulamentação da Reforma Tributária. Tudo isso enquanto enfrentamos uma grave escassez de motoristas em todo o mundo, falta de mão de obra qualificada nas mais diversas áreas, em especial os Centros de Distribuição, e aprendemos – e nos adaptamos – sobre novos modelos de trabalho, automação, Inteligência Artificial, dentre muitas outras tecnologias que vão moldar o futuro do setor. Sem deixar de considerar que nosso calendário exigirá uma gestão ainda mais refinada, que permita amortecer os impactos do ano atípico em que eleições, copa do mundo, feriados e agendas sazonais poderão impor quebras forçadas no ritmo das operações.
2026 deve também intensificar pressões ligadas a custos de frete internacional, principalmente impactadas por restrições marítimas e as tensões geopolíticas. Além disso, podemos ter competição por capacidade nos portos, caso o fluxo global siga mais instável, reconfiguração dos hubs logísticos globais, demandando reposicionamento estratégico, e compliance ambiental, com países e clientes demandando cadeias mais verdes.
Ou seja, o ano será de intensos desafios, muitos aprendizados, mas que trará uma certeza: urge a necessidade de cada vez mais entendimento da população sobre o papel desses profissionais e da importância em desenvolvermos a Multimodalidade. Tudo o que é produzido, importado e exportado, passa por um Operador Logístico! E ampliar essa percepção institucional e estratégica, é a prioridade número um.
(*) Diretora executiva da ABOL.



