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Empresas continuam competindo. Mas crescem pela capacidade de colaborar.

em Vetores do Varejo
quarta-feira, 08 de julho de 2026

Lyana Bittencourt (*)

A competição segue como motor dos negócios. O que mudou foi a forma de construir vantagem. Em mercados marcados por especialização, velocidade e transformação constante, cresce quem consegue reunir competências que dificilmente estariam concentradas em uma única organização.

Isso desloca o foco da empresa para as relações que ela é capaz de construir. Fornecedores, franqueados, parceiros tecnológicos, operadores logísticos, investidores, incorporadoras, canais de venda e até clientes já não ocupam posições fixas na cadeia de valor. Havendo alinhamento estratégico, cada um amplia a capacidade do outro de inovar, executar e responder ao mercado.

Convém separar cordialidade de colaboração. Uma é traço de cultura; a outra, competência estratégica. É essa segunda que determina a velocidade com que uma empresa incorpora novas capacidades, desenvolve soluções e acessa conhecimento especializado. Como tecnologia, dados e capacidade de execução estão hoje espalhados entre muitos agentes, poucas organizações sustentam crescimento relevante apoiadas apenas nos próprios recursos.

As redes de franquias mostram isso com clareza. O desempenho de uma operação depende da força da marca, mas também da qualidade das decisões dos franqueados, do fôlego dos fornecedores para acompanhar a evolução do negócio, da inteligência gerada pelos parceiros tecnológicos, da disponibilidade de bons pontos comerciais e da eficiência logística. Nenhum desses fatores opera sozinho. O resultado nasce da forma como eles se conectam.

O mesmo raciocínio vale para quem acelera a expansão por meio de parcerias estratégicas. Soluções financeiras viabilizam novos investimentos. Plataformas tecnológicas ampliam produtividade e personalização. Parcerias especializadas encurtam o tempo de resposta às mudanças do mercado (não porque terceirizam o problema, mas porque a inovação que importa quase sempre acontece fora dos limites de uma só empresa). Integrar competências externas de forma coordenada passou a render mais do que tentar desenvolver tudo dentro de casa.

Há aqui uma consequência menos óbvia para quem lidera. Coordenar a operação continua essencial, só que já não basta. Ao gestor cabe também criar as condições para que organizações distintas encontrem motivo para evoluir juntas. Confiança, transparência, governança e objetivos comuns saíram do território das boas intenções e entraram na conta do crescimento.

Nada disso é espontâneo. Relações estratégicas não se formam por proximidade nem se resolvem no papel de um contrato. Elas nascem de interesses que de fato convergem, de troca contínua de conhecimento e da disposição de desenvolver capacidades que sirvam a todos os envolvidos. Quando essa arquitetura funciona, o valor gerado supera a soma das partes.

A McKinsey estima que os ecossistemas de negócios poderão responder por cerca de 30% da economia global até 2030 e concentrar mais de 40% dos lucros das empresas. O número dá escala ao fenômeno. A mudança de fundo, porém, é outra: a vantagem competitiva não mora mais apenas na excelência isolada de cada organização. Ela passou a depender de quão bem uma empresa combina competências complementares em soluções mais completas para o mercado.

As empresas vão continuar disputando clientes, capital e espaço. A competição não sai de cena. O que muda é a natureza das capacidades que sustentam a disputa. E é justamente o ponto que costuma passar despercebido: onde ninguém domina sozinho todo o conhecimento relevante, a qualidade das relações que uma empresa constrói virou parte do seu ativo competitivo. Colaborar, nesse contexto, deixou de ser sinal de boa gestão para se tornar um teste de quem está de fato preparado para crescer.

(*) CEO do Grupo BITTENCOURT, consultoria fundada em 1985, que é especializada em franchising e desenvolvimento, gestão e expansão de redes de negócios. A companhia contabiliza mais de 3000 projetos com grandes marcas, de diversos setores do varejo.

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