Queremos Feijão!

Heródoto Barbeiro (*)

Nem o presidente escapa. O governo todo é responsabilizado pela crise econômi­ca que o Brasil vive.

Ele é acusado de gastar mais do que a administração é capaz de arrecadar. Por isso é obrigado a inventar uma série de manobras financeiras para esconder o déficit constante nas contas públicas e os buracos frequentes no orçamento da República. Resta ao governo recorrer aos empréstimos pagando juros escorchantes e, ainda assim, não são muitos os investidores que aceitam ser objeto de um calote.
Operações de crédito e emissão de títulos da dívida pública aliviam o caixa, mas são insuficientes para atender às despesas ordinárias. Não há dinheiro para bancar obras públicas. A manutenção das estradas e dos portos cria ainda mais dificuldades para que os produtos do agronegócio possam chegar aos portos em busca de compradores internacionais.

É uma crise como nunca se viu no país, reproduz a mídia insistentemente. Economistas e políticos duelam diariamente sobre quais as melhores saídas para o caos que a nação vive. Boa parte das críticas ao governo parte da oposição enfraquecida no Congresso Nacional. Há quem diga que as eleições foram fraudadas como sempre.

A população não tem nem força, nem organização para derrubar o Ministro da Economia e mudar o rumo da política. Vive esmagada sob o constante aumento dos preços, especialmente dos produtos de primeira necessidade. Nem o que se produz no país é barato. A inflação não para de crescer. Os alimentos populares, como o feijão e o café, estão cada vez mais caros.

A oferta para o mercado interno caiu verticalmente com o aumento das exporta­ções principalmente para a Europa. Chega-se mesmo a exigir do governo federal que proíba as exportações para que a maior oferta derrube os preços nos mercados e nas feiras livres. Os agricultores preferem vender para o exterior onde obtêm melhores preços. As condições de vida dos mais pobres pioram muito, especialmente nas cidades que dependem dos alimentos que vêm do campo.

As greves se sucedem, especialmente nas fileiras do funcionalismo público. Querem aumento de salário e pressionam com paralisações da inchada máquina pública. Isto implica agravar ainda mais a administração e a prestação de serviços da população a que são responsáveis. Alguns setores estão semanas parados e o governo de mãos amarradas. Os protestos populares são contra o desemprego e o custo de vida. Fábricas estão paradas e muitos empregados demitidos. E a mídia estampa a crise sem apontar qual é a porta de saída.

A miséria agora é a regra. Milhares de famílias passam fome e as ruas e praças estão cheias de miseráveis como nunca se viu antes. A realização da eleição para a Pre­sidência da República não alivia a tensão social. A posse do novo presidente é engolfada por protestos nas ruas ou simplesmente tem pouca importância. Para a maioria, a troca da faixa presidencial tem pouca ou nenhuma importância.

O carro que traz o novo chefe de governo para prestar juramento no Congresso Nacional mal consegue andar no meio das pessoas que protestam. Ele é recebido com uma chuva de frutas podres, berros, lama, vaias e gritos de “Fora Judas!”. O militar deixa a Presidência da República e passa o poder para Wenceslau Brás, que assume o governo em novembro de 1914, em plena Primeira Guerra mundial. Ao civil cabe administrar o que sobrou do país, ao marechal um merecido repouso em sua propriedade rural na aprazível Petrópolis.

A foto de Wenceslau e de seus ministros na porta do palácio presidencial é tirada com dificuldades, uma vez que a segurança não sabe até quando consegue manter os insatisfeitos à distância. Começa um novo capítulo da história da República, e paira no ar uma constante ameaça de estado de sítio. O marechal Hermes da Fonseca, de sua vivenda interiorana, avisa os jornalistas que se considera, enfim, liberto de uma escravidão que durou 4 anos. Sob o novo governo, nem uma palavra.

(*) – É jornalista, comentarista da Record News e Nova Brasil FM, além de autor de vários livros de sucesso (https://herodoto.com.br/).

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