O vírus chegou

Heródoto Barbeiro (*)

Ele vem da Europa. Ninguém desconhece que o contato com pessoas vindas do chamado velho continente são os portadores de uma grave ameaça à saúde humana.

O prognóstico não é favorável. A mídia estampa hospitais lotados, médicos e enfermeiros correndo sem saber para onde ir. As noticias divulgadas no pais de origem não merecem crédito porque o governo não tem interesse em divulgar uma pandemia que vai afetar a economia e derrubar a produção e o mercado internacional. Os cientistas buscam as origens do vírus, genericamente conhecido como influenza, e há discordância do animal responsável pela sua propagação.

Alguns reputam a uma contaminação de aves que por sua vez contaminam os porcos, que por sua vez contaminam os seres humanos. Não há uma ligação direta entre as aves e os infectados. A doença é um desafio para os institutos de pesquisa que não chegam a um medicamento, ou vacina que sejam capazes de imunizar as pessoas. Os curandeiros e benzedeiras trabalham a todo vapor.

Há um temor que as aglomerações, como o carnaval, sejam os locais de maior possibilidade de contágio. As fake News transitam de boca a boca. Há quem propague que a doença é um castigo divino provocado pelos pecados do ser humano, o apocalipse. Um castigo para uma sociedade pecadora, materialista, pela falta de religião e pela devassidão dos costumes. Ou a passagem de três cometas nas proximidades do planeta que trazem a doença, a guerra e a fome.

De fato os três convivem em um mundo conturbado e disputado pelas potências bélicas em vários campos de batalha. As teorias da conspiração ganham grande aceitação, como a de um laboratório que criou o vírus como uma arma de guerra, para contaminar o inimigo e perdeu o controle da disseminação. A cada dia novas notícias dão conta que o vírus atingiu locais distintos tanto na Europa como nos Estados Unidos. O Brasil não está fora desse ciclo de contaminação, recebe estrangeiros que já chegam na alfândega doentes.

Da constatação da chegada do vírus para a suspeita de muitos infectados é um passo. Em São Paulo são registrados muitos casos e logo em todo o país novos doentes são anunciados. Os protocolos médicos para impedir a expansão de epidemia são recentes e ninguém tem certeza que vão funcionar. A consequência imediata é a corrida para os hospitais ao primeiro sinal de gripe, e as vezes é apenas um resfriado. Mas o noticiário internacional não deixa ninguém tranquilo.

A capital do Brasil é um foco de forte propagação. Nem mesmo uma equipe médica enviada para a Europa para apoiar os aliados na guerra escapa da doença. Já chegam com o vírus atuante. Uma onda de contaminação percorre o pais. Pobres e ricos são atingidos. Não escapam nem a burguesia industrial, nem os latifundiários do café. Nem os políticos.

O presidente recém eleito em 1918, Rodrigues Alves, morre antes de tomar posse. A gripe espanhola mata no Brasil 35 mil pessoas. No mundo, matou mais do que as duas grandes catástrofes conhecidas como as duas grandes guerras mundiais.

(*) – Editor-chefe e âncora do Jornal da Record News em multiplataforma (www.herodoto.com.br).

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