Fim de Homenagem

em Heródoto Barbeiro
quinta-feira, 28 de outubro de 2021

Heródoto Barbeiro (*)

A decisão é unânime. A estátua deve ser retirada imediatamente da sala de reuniões.

A câmara municipal da maior cidade do país decide que não se pode homenagear um escravocrata. É verdade que a escravidão negra existe na maior parte das colônias do continente. Portugueses, brasileiros, holandeses, russos, alemães, holandeses ganham rios de dinheiro com o tráfico de negros africanos no Atlântico.
O desenvolvimento da monocultura nos latifúndios exige grande quantidade de mão de obra e prender e escravizar os indígenas não é suficiente. Além disso há a oposição da Companhia de Jesus, que lembra que recentemente o papa concedeu alma ao índio. Resta aos traficantes rondar as costas do continente africano e negociar com os chefes locais a obtenção de escravos.

Tribos mais fortes invadem o interior africano, prendem homens, mulheres e crianças e vendem tudo no litoral. O escambo se processa com a troca de produtos que chegam das colônias como rum, cachaça, fumo de corda e utensílios de metal.

A mão de obra escrava se adequa ao desenvolvimento do capitalismo mercantil. O escravo é uma mercadoria e pode ser vendido, comprado, trocado ou simplesmente apresado.

O volume maior é de negros, porém há expedições que prendem outras etnias. Geralmente estas são comercializadas no mundo islâmico, sobretudo no Oriente Médio. Os povos mais próximos do Atlântico são embarcados principalmente para as colônias de Portugal, Espanha, Inglaterra, França e Holanda. Durante alguns séculos o escravo negro é a mão e pé dos senhores de terras na América.

Em algumas colônias a miscigenação com os brancos é maior e o mulato ganha um status diferente. Contudo a violência é o denominador de todas as colônias europeias. Ela começa no embarque das pessoas nos navios da morte, ou tumbeiros, e só termina com a chegada ao local de trabalho onde permanece sob vigilância, castigos violentos, separação da família e outras atrocidades.

O que caracteriza a escravidão não é a cor da pele, mas a maneira que uma pessoa é inserida no sistema capitalista da época. Escravos existem desde a antiguidade e até mesmo em civilizações admiradas como grega, romana, persa, árabe, chinesa, etc.

Um proprietário de terras que tem 600 escravos, uma amante negra, mãe de seus seis filhos, não pode ser homenageado. Ele é um escravocrata. Sua estátua deve ser removida imediatamente, decidem os conselheiros. Por unanimidade não se leva em conta que o homenageado desafiou o rei.

Nem que tenha participado da conspiração que decidiu separar as colônias e trilhar um novo caminho. Ele redige a declaração de independência, o documento mais importante da nação. Thomas Jefferson é um dos pais fundadores da República dos Estados Unidos, que no futuro será a maior democracia do planeta.

O seu passado o condena, por isso não pode ser homenageado decide a câmara municipal. Se os congressistas quiserem manter a sua estátua na rotunda do Capitólio, isto é um problema de quem dirige a capital do país. A retirada segue um movimento de excluir de praças públicas estátuas de líderes dos Confederados, os sulistas favoráveis à escravidão e que lutaram uma sangrenta guerra civil.

A estátua de Jefferson vai para um museu de uma sociedade de história, depois de mais de cem anos na câmara municipal nova-yorkina. E a estátua do primeiro presidente e líder da guerra de libertação americana, George Washington, vai ter o mesmo destino?

(*) – Jornalista do R7, Record News e Nova Brasil fm, é Professor. Palestras e Midia Training (www.herodoto.com.br).