Ele voltou

Heródoto Barbeiro (*)

O avião proveniente do sul do país pousa no aeroporto bem no centro da cidade. O velho líder está de volta com ampla cobertura da imprensa.

Suas declarações o antecedem e acendem os debates políticos entre os seus seguidores e opositores. O velho populista está de volta à cena política, mas na prática mesmo isolado no sul, nunca se afastou dela. Seus admiradores iam e vinham com suas mensagens, tiravam fotos ao seu lado e publicavam, e o mantinha vivo na mente do povo de todo o Brasil. As entrevistas realizadas durante o período que esteve materialmente isolado fizeram sucesso, especialmente em revista de circulação nacional.

Assim, o “exílio “ forçado tinha sido habilmente convertido em mote político. De lá comandava seus apoiadores e dava pitacos no governo federal. Por isso ninguém estranha que quando o avião pousa, e uma multidão o espera no aeroporto, a direção do partido já tenha uma agenda de viagens para as principais cidades brasileiras. Não fica estacionado em uma só capital.

O velho líder político reitera que quando governou o Brasil, foi o momento de maior crescimento econômico, com o desenvolvimento da indústria e do agronegócio. Aos desassistidos lembra constantemente que foi o momento de ascensão social de maior intensidade com muita gente adquirindo melhores condições de vida. Afinal ele vem do campo e muitas vezes é chamado de pai dos pobres. Nessa nova fase de sua longa carreira política repete os slogans mais conhecidos e sua voz e entonação são nacionalmente identificados.

Logo na primeira frase todos já sabem de quem se trata. Muitos artistas e humoristas o imitam e sua imagem não sai das charges publicadas na mídia. Não cansa de repetir que volta para conciliar o país, unificar as divergências, sem rancor e sem ódios. Sente-se um jovem, apesar da idade, capaz de liderar o povo brasileiro em direção a uma sociedade mais justa, igual e solidária. Nem bem está de volta e já viaja e é recebido por multidão de admiradores.

As acusações de corrupção não se atenuam mesmo com sua volta. Pelo contrário ocupa amplos espaços na imprensa, e casos antigos são retomados e recontados com mais ênfase. Ele nega que tenha se favorecido e que jamais permitiu que seus parentes de aproveitassem do poder para enriquecer. A atmosfera política se assemelha ao campeonato de futebol, um verdadeiro Fla-Flu, e ao invés de conciliação o que se vê é a radicalização.

Seus apoiadores comparecem em manifestações e cantam o refrão “deixem o velhinho trabalhar“. Nunca se viu na história do Brasil a vida de um político que, teoricamente estaria morto, ressuscitar e mobilizar multidões. Teme-se que possa implantar uma nova ditadura populista como fez quando liderou o golpe que implantou o Estado Novo. Getúlio está de volta ao palácio presidencial e ninguém sabe se o se governo vai ou não chegar ao fim.

Os investimentos nacionais e estrangeiros estão ariscos, há uma desconfiança sobre os destinos da economia, e um clima de instabilidade jurídica. Mas o cantor Francisco Alves, mantem nas paradas de sucesso o hit “Bota o retrato do velho outra vez, Bota no mesmo lugar, o sorriso do velhinho, faz a gente trabalhar.”

(*) – É editor chefe e âncora do Jornal da Record News em multi plataforma (www.herodoto.com.br).

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