De olho na Prefeitura

Heródoto Barbeiro (*)

Escolher o prefeito da grande cidade não é tarefa para os moradores.

Afinal, dizem os donos do poder, a população não sabe votar nem escolher o melhor nome para gerir a cidade. Especialmente se for a capital do país. Os nomes são analisados tanto no Congresso Nacional como no gabinete presidencial. Aparentemente o presidente da república não deveria se envolver com prefeitura, uma vez que já tem tantos outros problemas para resolver.

Mas acha tempo para tudo, afinal alguns deles são estruturais e persistem ao longo de toda a história do Brasil, e provavelmente não serão resolvidos no seu governo. Ter alguém de confiança na administração da cidade aumenta o seu cacique político. Tem que ser leal e ouvir o chefe. No mais das vezes o apoio ao prefeito faz parte de uma troca já combinada nos bastidores do poder e ou é o pagamento de um apoio recebido durante a sua eleição na campanha presidencial, ou um novo acordo.

O toma cá, dá lá, é de dupla mão de direção e não descarta nenhum cargo político, inclusive o de prefeito. Governar uma grande cidade sem a ajuda de verbas federais é o caminho mais curto para o fracasso da administração e da carreira do prefeito. Afinal, a cidade é um trampolim poderoso para se alcançar cargos importantes na república. Por isso o titular não titubeia em abandonar o mandato no meio e participar de campanha para deputado federal, senador ou mesmo govenador do estado.

Não é à toa que o presidente precisa ficar de olho no prefeito e ter nele um aliado e não um vira casaca que pode se associar a oposição e perturbar o ambiente político. Questões como o saneamento básico, moradias populares, favelamento, violência urbana, transporte público podem ser resolvidos com verbas públicas.

O caixa da prefeitura é sempre insuficiente para atender ao crescimento desordenado da cidade, o adensamento populacional e os serviços sempre precários de atendimento ao povo. Em socorro à administração local só existe um remédio: as verbas do governo federal. E a caneta está nas mão do presidente, afinal a avaliação positiva do prefeito também lhe traz dividendos eleitorais.

O que aparentemente é uma questão paroquial, a escolha do alcaide, se torna um componente importante para a manutenção do poder. O indicado para receber o apoio do presidente da república deve ser alguém que tenha boa popularidade. Não se trata só de amealhar votos, mas de ter o apoio da imprensa e dos líderes políticos espalhados na periferia das cidades.

Estes são conquistados com pequenos mimos como nome de parentes e amigos em ruas e avenidas na periferia, empregos no governo e dotação de verbas para as entidades de fins duvidosos. Os prefeitos têm o nome e o sobrenome ligados às elites oligárquicas que governam o pais, ainda que uns ostentem o título de engenheiro, médico, arquiteto, advogado e outras profissões que só a elite tem acesso.

Não há possibilidade de um popular chegar à prefeitura da capital do Brasil. Desde a primeira constituição o Rio de Janeiro deixa de ser o município neutro da época imperial e passa a ser o Distrito Federal. O prefeito é nomeado pelo presidente da república. Os interventores também. Não há eleição para o poder executivo municipal.

A cidade, por ser a capital da República dos Estados Unidos do Brasil, precisa ser governada em consonância com o poder central. Lá está localizada o palácio presidencial, o Congresso Nacional, o Supremo Tribunal Federal, os comandos militares, as universidades federais, as embaixadas estrangeiras e um sem número de repartições públicas de toda ordem.

Não há crise de desemprego uma vez que boa parte da população é funcionária do estado e recebe salário ou a aposentadoria. Só mesmo com a saída do centro do poder as coisas podem mudar. Juscelino transfere o distrito federal para Brasília e a cidade do Rio de Janeiro se torna o Estado da Guanabara e a população ao invés de escolher o prefeito, escolhe o governador.

(*) – É ancora do Jornal da Record News em multiplataforma ([email protected]).

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