
Ao ler a pesquisa Corrupção e Integridade no Mercado Brasileiro, da Transparência Internacional em parceria com o Datafolha, tive a confirmação numérica de algo que você provavelmente já percebe na prática. A integridade no ambiente de negócios avança em estrutura, mas enfrenta pressões cada vez mais intensas — e mensuráveis.
Nada ilustra melhor esse cenário do que o dado de que 96% dos profissionais de compliance afirmam que o crime organizado se tornou um problema crescente e passou a impactar negativamente a integridade do ambiente de negócios brasileiro. Não estamos falando de uma preocupação marginal, mas de um risco percebido de forma quase unânime por quem vive o tema no dia a dia.
Ao mesmo tempo, surge uma tensão importante. 69% dos entrevistados acreditam que a due diligence de integridade das empresas brasileiras é suficiente para detectar e evitar vínculos com o crime organizado. Esse número contrasta com outro dado relevante: apenas 57% concordam que as empresas com as quais interagem adotam controles específicos para mitigar riscos associados ao crime organizado. Para mim, essa diferença revela um ponto de atenção claro para você: há confiança nos processos internos, mas menos segurança na robustez da cadeia de terceiros.
O estudo também traz números preocupantes sobre o ambiente institucional. 59% dos respondentes afirmam que nenhuma das principais instituições brasileiras demonstra compromisso e atuação adequada no combate à corrupção. Quando analisadas individualmente, a percepção negativa é ainda mais evidente: 92% avaliam que o Congresso Nacional não demonstra compromisso, 71% dizem o mesmo do Governo Federal e 67% do Poder Judiciário. Esse contexto ajuda a explicar por que 90% dos profissionais acreditam que anulações de casos de corrupção pelo Judiciário aumentam a percepção de impunidade e prejudicam as práticas de integridade.
Mesmo assim, as empresas seguem investindo. 54% afirmam que houve aumento de investimento em compliance em relação ao ano anterior, e 48% acreditam que a área tende a crescer nos próximos anos, seja em orçamento, seja em equipe. Não é um dado trivial. Ele mostra que, apesar do ambiente externo adverso, o setor privado tem sustentado seus programas de integridade.
Quando perguntados sobre onde é preciso evoluir, os números também falam por si. 46% apontam o monitoramento contínuo do programa como prioridade de aprimoramento, 44% citam a due diligence de terceiros e 43% destacam a matriz de riscos e controles internos. Esses percentuais reforçam que o desafio não está apenas em ter políticas, mas em fazê-las funcionar de forma viva e atualizada.
Para mim, a mensagem final da pesquisa é objetiva. Você atua em um ambiente onde os riscos são reconhecidos por quase todos, as fragilidades institucionais são amplamente percebidas e, ainda assim, há disposição para investir em integridade. Ética, nesse contexto, deixa de ser discurso e passa a ser decisão estratégica baseada em evidências. Os números mostram que ignorar esse cenário não é apenas ingênuo — é arriscado.
– – –
Denise Debiasi é CEO da Bi2 Partners, reconhecida pela expertise e reputação de seus profissionais nas áreas de compliance e inteligência investigativa, finanças corporativas, consultoria regulatória (AML, BSA e LGPD), contabilidade forense, Due Diligence (financeiro, reputacional, investigativo e operacional), investigações corporativas, antilavagem de dinheiro, FCPA e anticorrupção, entre outros serviços de primeira importância em mercados emergentes.
Ética que sustenta resultados – Jornal Empresas & Negócios



