Ana Luisa Winckler (*)
Todo ano aparece uma nova lista de coisas que aumentam o risco de morte: gordura trans, cigarro, sedentarismo, boleto atrasado, reunião por Teams às 8h da manhã.
Agora temos mais uma: a solidão.
Segundo estudos da Organização Mundial da Saúde, Harvard e o relatório do U.S. Surgeon General, sentir-se sozinho aumenta o risco de morte em até 14%. A OMS já classificou a solidão como “a próxima grande crise de saúde pública”. Pior: 1 em cada 6 pessoas no mundo está convivendo com isso agora, enquanto posta foto no brunch dizendo que está “de boas”.
Mas ninguém quer admitir que está só.
Porque, no fundo, “solidão” sempre parece coisa de quem “não deu conta de ter uma vida social decente”. A gente terceiriza vínculos, faz ghosting com a mesma velocidade com que troca de série no streaming, e depois quer entender por que está todo mundo se sentindo meio morto-vivo por dentro.
O paradoxo social do século XXI
Nunca estivemos tão conectados, mas nunca nos sentimos tão invisíveis.
O que chamamos de “rede” virou display de performance social.
Uma pesquisa de Harvard (a mais longa sobre felicidade já registrada) é categórica:
A qualidade das nossas relações é o maior determinante de saúde, longevidade e bem-estar.
Não é dinheiro. Não é cargo.
É vínculo.
Mas a gente finge que não leu.
Ou melhor: dá like no post do estudo e continua vivendo igual.
E aí, no silêncio da noite, a solidão bate — não porque não há pessoas, mas porque não há presença.
Não há olho no olho.
Não há espaço seguro.
Não há escuta.
Há respostas rápidas, agendas cheias, e vínculos cada vez mais descartáveis.
A solidão não é drama: é biologia
O corpo lê solidão como ameaça.
Ativa o sistema de alerta.
Aumenta inflamação.
Desregula hormônios.
Desorganiza o sono.
Adoece.
Ou seja: seu cérebro não quer saber se você respondeu um “kkkk” no grupo da empresa. Ele quer saber se você pertence a alguém e se alguém pertence a você. Ponto.
Mas aqui entra o plot twist moderno
A gente tem medo da solidão.
E ao mesmo tempo tem pavor da intimidade.
Quer alguém por perto, mas que não peça muito.
Quer afeto, mas sem conflito.
Quer acolhimento, mas sem vulnerabilidade.
Quer amor, mas sem risco.
O resultado?
Um cardápio infinito de relações fast-food.
E um mundo inteiro com fome.
O que ninguém diz (mas você já suspeitava)
A solidão não nasce da falta de gente.
Nasce da falta de coragem.
Coragem de se mostrar.
Coragem de pedir ajuda.
Coragem de não ser tão “funcional”.
Coragem de admitir que está difícil.
Coragem de dizer: “Eu preciso de você”.
E eu sei, isso dá medo.
Mas ficar sozinho para sempre também.
A pergunta que eu deixo para A Outra Sala
Se a solidão aumenta risco de morte, o que as nossas relações estão aumentando?
Vida?
Ou performance?
Porque enquanto não fizermos essa pergunta, vamos seguir vivendo como se tudo fosse urgente, menos aquilo que realmente salva: GENTE.
Não gente ao redor.
Gente junto.
Gente que vê, que pergunta, que chama, que sustenta.
Gente que lembra que conexão não se compra, não se posta e não se entrega por delivery.
Se a solidão é uma epidemia, talvez a cura seja menos complexa do que parece:
voltar para o outro – para valer.
E não só responder “bom diaaa” no grupo da família.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
