Ana Luisa Winckler (*)
A gente tem falado, e com razão e urgência, sobre o aumento da violência contra mulheres, sobre misoginia, sobre ataques, sobre o avanço de discursos que parecem saídos de um porão digital mal ventilado.
Mas talvez a pergunta esteja mal formulada.
Talvez não seja só sobre o que está acontecendo com as mulheres.
Talvez seja sobre quem está formando os homens que estão chegando agora.
Porque existe um erro silencioso acontecendo.
A gente desmontou um modelo masculino inteiro, e ele precisava ser desmontado. Mas não construiu, com a mesma força, um outro lugar possível.
E o vazio… não fica vazio por muito tempo.
Não estamos diante apenas de homens que odeiam mulheres.
Estamos diante de homens que não sabem onde existir sem dominar.
E isso muda completamente a conversa.
Porque quando existir não é suficiente, quando ser não basta, o poder vira atalho.
E o atalho mais rápido, historicamente, sempre foi o mesmo: controle, imposição, violência.
Existe um componente aqui que a gente evita nomear.
Não é só frustração.
É humilhação.
Uma sensação difusa de inadequação, de estar aquém, de não corresponder, não só ao que o mundo pede, mas ao que prometeram que eles seriam.
E a humilhação tem um comportamento previsível: quando não é elaborada, ela não vira consciência. Ela vira acusação.
Agora soma isso a uma geração que está sendo formada em ambientes sem fricção real.
- Pornografia como referência de intimidade.
- Algoritmo como referência de mundo.
- Dopamina fácil.
- Rejeição sem mediação humana.
O resultado não é só imaturidade.
É uma combinação perigosa de:
- baixa tolerância à frustração
- fantasia inflada de si
- e nenhuma habilidade relacional consistente
E aí esses homens encontram mulheres reais.
Mulheres que escolhem.
Que recusam.
Que não precisam mais aceitar qualquer coisa para existir.
E isso, para quem não construiu um senso interno de valor, soa como rejeição absoluta.
Não como “não fui escolhido”.
Mas como: “fui desqualificado como homem.”
E é aqui que a gente não está olhando.
Esses homens não estão sendo formados só por ausência.
Eles estão sendo formados ativamente.
Por fóruns.
Por comunidades.
Por conteúdos que oferecem algo muito sedutor: uma explicação simples para uma dor complexa.
“Você não é o problema.”
“O problema são elas.”
“O mundo está contra você.”
E pronto.
Está criado um pertencimento.
Talvez o ponto mais desconfortável seja esse: não estamos apenas diante de uma crise de masculinidade.
Estamos diante de um mercado clandestino de identidade masculina sendo ocupado.
E ele está crescendo.
Se a gente continuar olhando só para o sintoma, vai continuar reagindo ao comportamento.
Mas não vai intervir na formação.
E aí o futuro deixa de ser uma hipótese distante… e vira uma sequência previsível.
Homens mais isolados.
Menos capazes de vínculo.
Mais organizados em torno da própria revolta.
E com cada vez mais ferramentas para amplificar isso.
A gente fala, e precisa falar cada vez mais, sobre empoderar mulheres. Mas existe uma outra pergunta, menos confortável e igualmente urgente: quem está ensinando os homens a existir sem precisar vencer alguém?
Porque, se a resposta for “ninguém” … alguém vai assumir esse papel. E já tem gente assumindo.
Quando o masculino não encontra lugar legítimo, ele não desaparece.
Ele se organiza – e, muitas vezes, contra alguém.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
