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Os homens não foram deixados para trás. Foram deixados sem lugar.

em A Outra Sala
terça-feira, 24 de março de 2026

Ana Luisa Winckler (*)

A gente tem falado, e com razão e urgência, sobre o aumento da violência contra mulheres, sobre misoginia, sobre ataques, sobre o avanço de discursos que parecem saídos de um porão digital mal ventilado.

Mas talvez a pergunta esteja mal formulada.

Talvez não seja só sobre o que está acontecendo com as mulheres.

Talvez seja sobre quem está formando os homens que estão chegando agora.

Porque existe um erro silencioso acontecendo.

A gente desmontou um modelo masculino inteiro, e ele precisava ser desmontado. Mas não construiu, com a mesma força, um outro lugar possível.

E o vazio… não fica vazio por muito tempo.

Não estamos diante apenas de homens que odeiam mulheres.

Estamos diante de homens que não sabem onde existir sem dominar.

E isso muda completamente a conversa.

Porque quando existir não é suficiente, quando ser não basta, o poder vira atalho.

E o atalho mais rápido, historicamente, sempre foi o mesmo: controle, imposição, violência.

Existe um componente aqui que a gente evita nomear.

Não é só frustração.

É humilhação.

Uma sensação difusa de inadequação, de estar aquém, de não corresponder, não só ao que o mundo pede, mas ao que prometeram que eles seriam.

E a humilhação tem um comportamento previsível: quando não é elaborada, ela não vira consciência. Ela vira acusação.

Agora soma isso a uma geração que está sendo formada em ambientes sem fricção real.

  • Pornografia como referência de intimidade.
  • Algoritmo como referência de mundo.
  • Dopamina fácil.
  • Rejeição sem mediação humana.

O resultado não é só imaturidade.

É uma combinação perigosa de:

  • baixa tolerância à frustração
  • fantasia inflada de si
  • e nenhuma habilidade relacional consistente

E aí esses homens encontram mulheres reais.

Mulheres que escolhem.
Que recusam.
Que não precisam mais aceitar qualquer coisa para existir.

E isso, para quem não construiu um senso interno de valor, soa como rejeição absoluta.

Não como “não fui escolhido”.

Mas como: “fui desqualificado como homem.”

E é aqui que a gente não está olhando.

Esses homens não estão sendo formados só por ausência.

Eles estão sendo formados ativamente.

Por fóruns.
Por comunidades.
Por conteúdos que oferecem algo muito sedutor: uma explicação simples para uma dor complexa.

“Você não é o problema.”
“O problema são elas.”
“O mundo está contra você.”

E pronto.

Está criado um pertencimento.

Talvez o ponto mais desconfortável seja esse: não estamos apenas diante de uma crise de masculinidade.

Estamos diante de um mercado clandestino de identidade masculina sendo ocupado.

E ele está crescendo.

Se a gente continuar olhando só para o sintoma, vai continuar reagindo ao comportamento.

Mas não vai intervir na formação.

E aí o futuro deixa de ser uma hipótese distante… e vira uma sequência previsível.

Homens mais isolados.
Menos capazes de vínculo.
Mais organizados em torno da própria revolta.
E com cada vez mais ferramentas para amplificar isso.

A gente fala, e precisa falar cada vez mais, sobre empoderar mulheres. Mas existe uma outra pergunta, menos confortável e igualmente urgente: quem está ensinando os homens a existir sem precisar vencer alguém?

Porque, se a resposta for “ninguém” … alguém vai assumir esse papel. E já tem gente assumindo.

Quando o masculino não encontra lugar legítimo, ele não desaparece.
Ele se organiza – e, muitas vezes, contra alguém.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.