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Não deixamos os líderes adultecerem

em A Outra Sala
terça-feira, 07 de outubro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Escrevo de um lugar que o RH conhece bem: o entre-lugar.

Entre o lucro e o laço.

Entre o discurso e o cuidado.

Entre o que a empresa diz que é,  e o que realmente prática quando o Excel fecha a porta.

Durante décadas, o RH tentou provar que era estratégico.

Estudou finanças, aprendeu o idioma dos negócios, decorou o EBITDA e passou a falar de pipeline, budget e stakeholders como quem reza em latim.

Mas nessa ânsia de ser ouvido, foi deixando o próprio idioma se apagar.

O da escuta, da relação, da consciência de que cultura não se controla, se cultiva.

Viramos especialistas em cuidar dos outros, mas analfabetos emocionais de nós mesmos.

Reproduzimos estruturas que adoecem enquanto imprimimos cartazes de “Saúde Mental em Primeiro Lugar”.

Nos colocamos no papel de guardiões da harmonia e, no fundo, só evitamos o conflito.

E assim o RH foi sendo domesticado para caber: o cuidador institucional de uma família corporativa disfuncional.

O Financeiro, o pai provedor, dita os limites: corte, meta, controle.

O RH, a mãe coruja, faz o que pode: acolhe, ajeita, compensa.

E o filho — o líder — cresce sem nunca aprender a se cuidar, a se responsabilizar, a adultecer.

Não é coincidência que Freud já falava sobre o perigo da transferência: o sujeito projeta no outro aquilo que não sustenta em si.

As empresas fizeram o mesmo com o RH.

Terceirizaram o afeto.

Delegaram o cuidado.

E transformaram o “recursos humanos” em um grande repositório emocional de culpas e expectativas.

Mas cuidar, como lembra Winnicott, não é proteger do desconforto — é dar sustentação para que o outro cresça.

E o RH, muitas vezes, confunde amor com anestesia.

Acolhe o sintoma, mas não enfrenta a causa.

Aplica mindfulness onde caberia revisão estrutural.

Distribui frutas e mantras enquanto a cultura apodrece em silêncio.

É preciso reconhecer: o RH criou parte do próprio labirinto.

Quando quis ser o afeto do sistema, esqueceu que também precisava ser o espelho.

O resultado é um setor esgotado, que vive entre a culpa e o cinismo, e que agora assiste ao LinkedIn virar um confessionário de gente cansada — gestores que não querem liderar, jovens que não querem pertencer e profissionais que já não acreditam na fábula da “empresa que cuida”.

A psicologia organizacional já avisava: o trabalho é um palco de projeções.

Mas é preciso, de uma vez por todas, amadurecer o roteiro.

Talvez o papel do RH não seja o de mãe nem de herói — mas o de consciência.

Aquela que lembra que a empresa é feita de pessoas, sim, mas que cuidar de gente não é o mesmo que poupá-la da realidade.

Porque o verdadeiro cuidado não é o que acolhe, é o que desperta.

E talvez, neste momento histórico, o papel mais revolucionário do RH seja justamente esse: deixar os líderes, finalmente, crescerem.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.