355 views 3 mins

Como perder aprovação em 10 dias

em A Outra Sala
terça-feira, 16 de setembro de 2025

(spoiler: e ganhar a si mesmo)

Ana Luisa Winckler (*)

No ambiente corporativo, existe uma moeda mais valorizada que bônus em dólar: a aprovação alheia. É ela que decide se seu projeto voa ou se fica no PowerPoint. Se sua fala é “assertiva” ou “emocional demais”. Se você é visto como “líder inspirador” ou “difícil de lidar”.

O problema é que, quando o câmbio dessa moeda sobe, muita gente troca autenticidade por aceitação. Vira especialista em fazer a dancinha do TikTok corporativo: concorda com o chefe, ri da piada sem graça do diretor e aprende a usar frases como “ganhos de sinergia” sem engasgar na própria dignidade.

A psicologia já explicou isso. Donald Winnicott chamou de falso self. Eu chamo de “versão beta de você mesmo”: funciona, entrega, mas nunca será o produto final. É aquela sensação de ser o funcionário do mês e, ao mesmo tempo, sentir que a própria alma pediu demissão.

E aqui vai a ironia das ironias: as empresas pregam cartazes coloridos com “Seja você mesmo”, mas na prática esperam que você seja uma mistura de Excel com sorriso de LinkedIn. Querem criatividade, mas só se couber no template da apresentação.

Na prática, autenticidade não é rebeldia inconsequente. É coerência. É ser capaz de dizer “esse sou eu” sem medo de que a frase custe o crachá. É arriscar expor vulnerabilidades, sustentar opiniões divergentes e, sobretudo, não reduzir a própria potência ao que cabe no olhar aprovador do chefe ou do algoritmo.

Autenticidade é conseguir dizer “não” sem pedir desculpa em cinco vias. É sustentar sua forma de pensar mesmo quando não agrada ao “clube do cafezinho”. É não gastar a vida inteira pedindo like invisível no corredor da firma.

A aprovação é como o Wi-Fi do escritório: instável, lenta e geralmente controlada por alguém que não entende nada de tecnologia. Já a autenticidade é sua senha mestra, e só você sabe.

E talvez a liderança do futuro seja justamente essa: criar espaços onde a gente não precise escolher entre agradar e existir.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, ela cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.