Ana Luisa Winckler (*)
Como a cultura do afeto intermitente, a responsabilidade masculina e a violência afetam mulheres, empresas e a economia inteira
A violência contra a mulher não começa no feminicídio, mas o feminicídio é onde ela explode.
E é urgente dizer o óbvio que muitos ainda contornam: são homens que cometem esses crimes, e eles estão aumentando.
Isso não é sintoma: é um alerta vermelho piscando no centro da nossa cultura.
Mas para entender como chegamos ao extremo, é preciso voltar ao início, à educação emocional que damos às mulheres e, sobretudo, à que não damos aos homens.
Desde pequenas, meninas aprendem que amor é conquista, esforço, paciência.
E assim nasce a confusão que molda uma geração inteira: desejo vira trabalho emocional.
É por isso que tantas mulheres inteligentes, independentes, críticas, ainda se conectam com homens emocionalmente indisponíveis.
Não por ingenuidade, mas porque foram treinadas a acreditar que o amor mais difícil é o mais valioso.
Aqui entra a metáfora social perfeita: é como ficar três horas na fila de um restaurante da moda, comer algo mediano e postar como se fosse divino.
Não pela comida, mas pelo investimento emocional feito.
Quanto maior a espera, maior a necessidade de justificar a escolha.
Nos relacionamentos, o mecanismo é o mesmo: quanto mais esforço, mais apego ao pouco que se recebe.
Só que essa dinâmica tem consequências sérias.
Quando uma mulher passa anos dando 90% e recebendo 10%, seu radar de perigo se embota.
O silêncio dele vira perfil, não alerta.
A omissão vira “ele é assim”.
E a falta de cuidado vira “cada um ama de um jeito”.
Mas aqui está a parte que NUNCA pode ser distorcida:
isso não torna mulheres responsáveis pela violência que sofrem.
O agressor é sempre o autor da violência.
E o feminicídio não nasce da vulnerabilidade feminina, nasce da liberdade cultural masculina de ser ausente, agressivo, dominante e impune.
O impacto, porém, ultrapassa o íntimo:
- mulheres emocionalmente exaustas produzem menos;
- relações assimétricas aumentam solidão, que aumenta risco de violência;
- e violência — emocional, psicológica, física — derruba produtividade, saúde mental e economia.
Isso é o que quase ninguém diz: a indisponibilidade emocional masculina é um fator econômico.
Ela reduz criatividade, liderança, presença e potência feminina.
É custo invisível para empresas, países e gerações.
E o corporativo replica o padrão: líderes que somem, gestores que aparecem só na crise, organizações que oferecem afeto intermitente, igual ao crush que manda mensagem quando convém.
A mesma lógica que prende mulheres em relações ruins prende talentos em ambientes ruins.
A pergunta certa não é: “Por que mulheres escolhem homens indisponíveis?”
A pergunta é: Por que homens seguem autorizados a ser indisponíveis, e, nos casos extremos, violentos? Quem ganha com essa assimetria?
Porque quando uma mulher finalmente encontra constância – em afetos, vínculos, trabalho – ela vive, cria e lidera melhor.
E isso mexe com tudo: com a saúde mental coletiva, com a economia, com o futuro.
No fim, enfrentar a violência exige duas frentes: ensinar mulheres a não romantizar filas – de restaurantes, de promessas, de afetos – e ensinar homens que sua presença emocional não é um favor: é responsabilidade, ética, prevenção e humanidade.
Só assim o ciclo se rompe.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
