Ana Luisa Winckler (*)
Nos últimos dez anos, o Brasil registrou o maior número de afastamentos por ansiedade e depressão da história. São dados oficiais. Não é “mimimi”, nem moda, nem onda da autoajuda. É sintoma coletivo.
Curiosamente, isso não aconteceu na pandemia. Começa antes, e continua depois. A pandemia só tirou a maquiagem.
Ela só escancarou o que já estava sangrando debaixo do blazer.
Porque a verdade é que nós não estamos adoecendo “apesar do trabalho”.
Nós estamos adoecendo onde trabalhamos.
Ambientes em que pessoas são estimuladas a competir umas com as outras (e não a criar juntas).
Reuniões que confundem urgência com importância.
Sistemas que premiam quem aguenta mais, não quem faz melhor.
Lideranças que confundem frieza com profissionalismo.
Culturas onde “vulnerabilidade” é bonito no discurso da semana de saúde mental, mas vira fraqueza na avaliação de desempenho.
E aí depois dizem: “Mas as pessoas estão sensíveis demais.”
Seria cômico, se não fosse neurocientífico.
O CÉREBRO NÃO AGUENTA VIVER EM ALERTA CONSTANTE
A neurociência dos relacionamentos já mostrou que nosso cérebro é um órgão social: ele só se regula na presença de segurança.
Se o ambiente é de ameaça, competição constante, medo de errar, medo de ser substituído, o sistema nervoso trava em modo sobrevivência.
E cérebro em modo sobrevivência não cria, não inova, não colabora.
Ele vigia.
Ele se encolhe.
Ele tenta não morrer.
Aí vêm as empresas perguntando por que as pessoas não estão engajadas.
“Mas aqui somos uma família!”
Família de quem, exatamente?
Da família que ama?
Ou da família que cobra lealdade, mas não sustenta afeto?
Quando a cultura pede:
“Seja colaborativo, mas não confie demais.”
“Traga o seu melhor, mas não precise de ninguém.”
“Seja humano, mas não seja vulnerável.”
O corpo paga a conta.
Culpa. Exaustão. Hipervigilância. Distúrbios do sono. Perda de prazer. Ansiedade crônica.
Até virar um CID-10, e alguém do RH preencher um formulário.
A pergunta não é “Por que estamos adoecendo?”
A pergunta é:
QUEM AINDA CONSEGUE NÃO ADOECER?
Porque para o cérebro, saúde mental não é sobre “força individual”.
É sobre qualidade dos vínculos.
Onde existe apoio, reciprocidade e confiança, o corpo expande.
Onde existe ameaça, isolamento e medo, o corpo endurece.
E o que mais estamos cultivando nas empresas hoje?
Basta olhar o quadro.
SE QUEREMOS VIRAR O JOGO
Não basta colocar psicólogo uma vez por mês na intranet.
Nem fazer semana de “saúde mental com ioga na hora do almoço”.
Precisamos revisar as estruturas relacionais do trabalho:
- Como lideramos?
- Como damos feedback?
- Como reconhecemos?
- Como seguramos frustrações?
- Como cuidamos das dores invisíveis que ninguém fala, mas todos sentem?
Enquanto a cultura premiar sobreviventes, ela vai continuar produzindo feridos.
TALVEZ O PRÓXIMO GRANDE INDICADOR CORPORATIVO NÃO SEJA ROI, NPS OU EBITDA.
Talvez seja:
QUANTAS PESSOAS AINDA CONSEGUEM RESPIRAR AQUI DENTRO?
Porque onde a respiração é possível, o trabalho se torna criação.
Onde a respiração falta, ele vira ameaça.
E o corpo nunca mente.
(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.
