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A Era da IA e o Colapso da Consciência Corporativa

em A Outra Sala
terça-feira, 21 de outubro de 2025

Ana Luisa Winckler (*)

Ainda estamos discutindo Inteligência Artificial como se fosse uma disputa de poder: quem manda em quem, o humano ou o algoritmo?

Enquanto isso, deixamos de perguntar o essencial: o que o uso da IA revela sobre a forma como pensamos, sentimos e decidimos dentro das empresas?

Falamos em eficiência, produtividade e automação como se o tema fosse técnico, quando na verdade é ético e emocional.
Treinamos máquinas, mas esquecemos de reeducar humanos.

Antes, o argumento era “a diretoria decidiu”. Agora, “o algoritmo decidiu”.

A diferença? Antes errávamos por intuição. Agora erramos com convicção e dashboard.

Transferimos a confiança das pessoas para os sistemas, e chamamos isso de progresso.

Como lembra Mário Sérgio Cortella,

“A tecnologia só faz sentido quando está a serviço da vida.”

Mas parece que colocamos a vida a serviço da tecnologia.

Quando celebramos relatórios que “tiram 70 % do trabalho humano”, esquecemos de perguntar:

“Tiram também o aprendizado? A autoria? O pertencimento?”

Automatizamos o que dá trabalho, inclusive o pensar.

E o resultado é uma geração de líderes que domina dados, mas desaprendeu a fazer perguntas.

Cortella provoca:

“O desafio não é o que a IA fará conosco, mas o que faremos conosco enquanto a IA faz o que faz.”
A questão não é perder o emprego, é perder o sentido.

A IA pode substituir tarefas, mas não substitui consciência, ética e imaginação.

Nas entrevistas automatizadas, a IA pergunta “o que você fez?”.

O humano pergunta “o que te moveu a fazer?”.

Só o segundo constrói cultura e liderança, e é justamente o que estamos perdendo.

Vivemos a era do “sem tempo, irmão”, em que a velocidade virou virtude e o silêncio, falha de performance.
Mas a pressa não é política de futuro, é política de esgotamento.

“Não somos substituíveis porque somos insubstituíveis”, diz Cortella, e é isso que deveríamos cultivar: propósito, vínculo, ética e presença.

O papel da liderança agora é olhar a IA como espelho, não ferramenta.

Ela reflete nossas incoerências, o quanto valorizamos controle e o quanto tememos vulnerabilidade.
O líder do futuro não será quem domina o ChatGPT, mas quem entende o que ainda é exclusivamente humano.

O legado não será o código. Será o caráter.

A tecnologia pensa; mas só o humano é capaz de refletir sobre o que pensa.

E talvez seja isso o que mais precisemos reaprender, antes que o algoritmo aprenda a fingir que sente melhor do que a gente.

(*) Psicóloga, escritora e rebelde afetuosa do mundo corporativo — onde transforma silêncio em escuta e vulnerabilidade em potência. Com 25 anos de RH na bagagem, é CEO da Prisma Consultoria, e cria espaços onde até a meta sorri e o KPI pede um café.