Trabalho remoto: desafios e oportunidades

em Carreira e Mercado de Trabalho
sexta-feira, 26 de setembro de 2025

Virginia Magliulo (*)

Para muitos trabalhadores, os dias de deslocamento diário incessante para o local de trabalho ficaram no passado. Nos últimos cinco anos, houve uma ascensão do trabalho remoto e híbrido, o que permitiu que em algumas indústrias e funções as pessoas pudessem morar longe da sede de suas empresas e até mesmo se tornarem “nômades digitais”, trabalhando enquanto viajam pelo mundo.

Como resultado, as equipes estão mais dispersas geograficamente do que nunca. Uma pesquisa da ADP mostra que 31% dos trabalhadores atua remotamente, um aumento de 23% em relação ao início desta década. Enquanto alguns empregadores querem que todos voltem ao local de trabalho em tempo integral, outros adotam arranjos mais flexíveis, que oferecem muitas vantagens – embora também apresentem desafios significativos.

O surgimento de tecnologias que facilitam a interação entre colegas e clientes, como videoconferência e computação em nuvem, tornou a expansão geográfica mais fácil para as organizações. Além disso, outro benefício é a possibilidade de acomodar uma população mais diversa dentro das empresas.

Desse modo, além dos empregadores recrutarem talentos de um grupo muito mais amplo, aumentando as chances de encontrar candidatos que atendam aos requisitos específicos de uma função, os trabalhadores ganham acesso a um universo de oportunidades mais vasto, podendo obter um bom salário em regiões com menor custo de vida e sem gastos de deslocamento.

A opção de trabalho flexível é um critério importante na lista de desejos de muitos candidatos e, para alguns, pode ser decisiva. As gerações mais jovens, especialmente os Millennials e a Geração Z, classificam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional como uma das principais prioridades na escolha de um emprego. Assim, empresas que oferecem opções de trabalho remoto ou híbrido podem ser mais atraentes tanto para novos talentos quanto para os atuais funcionários , aumentando as taxas de retenção de profissionais qualificados, além de fortalecer o engajamento e a lealdade.

Há ainda a controvérsia de os trabalhadores remotos serem mais ou menos produtivos do que aqueles que trabalham presencialmente. No entanto, se o trabalho remoto e híbrido contribui para a satisfação profissional e o bem-estar geral, isso pode gerar resultados positivos para todos os envolvidos. Um estudo da Universidade de Oxford descobriu que funcionários felizes são 13% mais produtivos.

Por outro lado, ter trabalhadores espalhados por diferentes regiões geográficas também cria complexidades e expõe desafios para os empregadores. Gerenciar equipes e incentivar a colaboração tende a ser mais fácil presencialmente, pois os gestores podem acompanhar melhor o progresso e a dinâmica interna, discutir questões informalmente com os colegas e perceber quando problemas surgem. Do mesmo modo, equipes que trabalham juntas presencialmente costumam se sentir mais capacitadas para planejar estratégias e resolver problemas.

Além disso, trabalhadores que nunca vão ao escritório podem se sentir menos visíveis, profissionais mais jovens podem perder a oportunidade de aprender com colegas mais experientes, e pais que equilibram trabalho e cuidados com os filhos podem temer serem vistos como menos “presentes” no ambiente profissional. Trabalhar remotamente também pode fazer com que algumas pessoas sintam a necessidade de estarem sempre disponíveis. A falta de separação entre a vida pessoal e profissional pode fazer com que as pessoas dediquem mais horas e permaneçam online à noite ou nos fins de semana, aumentando o risco de estresse e ansiedade e, ironicamente, prejudicando o equilíbrio tanto almejado.

Outro ponto de atenção que as instituições devem olhar é que quando membros da equipe estão distribuídos por várias regiões, é necessário lidar com diferenças culturais e fusos horários, bem como navegar por uma infinidade de regulamentações legais, desde proteção de dados e privacidade até diversas leis trabalhistas e tributárias. Garantir conformidade com todas essas regras é uma tarefa extremamente complexa, especialmente porque as normas podem variar até mesmo dentro de um único país.

Para enfrentar esses desafios, é essencial considerar como gerenciar o impacto no negócio, promover um senso de inclusão para trabalhadores remotos e híbridos, compreender o perfil em evolução da força de trabalho e acompanhar o cenário global de regulamentações, que muda rapidamente.

Por exemplo, criar uma cultura corporativa coesa, garantindo que todos se sintam parte da equipe, mesmo trabalhando remotamente com frequência, é uma boa prática. Fazer com que novos funcionários realizem o processo de integração presencialmente, para que conheçam seus colegas e estabeleçam conexões para um bom trabalho em equipe também pode funcionar. Outra alternativa é agendar “dias de equipe” regulares para coordenar os dias presenciais dos trabalhadores híbridos, garantindo que eles tenham interações com colegas e gestores. Promover encontros presenciais ocasionais e eventos sociais é outra forma de fortalecer laços entre os membros da equipe.

(*) Vice-Presidente Executiva da ADP International.