Com a automação e a exclusão digital avançando, o trabalhador físico enfrenta desafios inéditos e urgentes em meio à transformação tecnológica
A digitalização acelerada da economia global tem modificado não apenas os modelos de negócios, mas também a natureza das profissões, sobretudo daquelas ligadas ao trabalho físico. Com a popularização da inteligência artificial, da automação industrial e de recursos digitais, funções que antes dependiam exclusivamente da força humana estão sendo substituídas por máquinas e sistemas inteligentes. De acordo com a Central Única dos Trabalhadores (CUT), os impactos das tecnologias digitais já provocam desemprego estrutural, aumento da informalidade e ampliação da desigualdade no Brasil. A chamada “revolução 4.0” chegou sem pedir licença, e muitos ainda tentam entender como reagir a ela.
Essas mudanças afetam especialmente os trabalhadores que atuam em setores como logística, construção civil, agropecuária e manufatura, profissões que envolvem atividades repetitivas, mecânicas e, portanto, mais suscetíveis à automação. “A tecnologia tem um lado transformador e necessário, mas também pode ser cruel com quem não teve as mesmas oportunidades de formação ou acesso à informação”, comenta João Ferrari, CEO da Nutrafit Suplementos e especialista em gestão e produtividade no varejo. “Estamos vendo uma parte significativa da força de trabalho sendo deixada para trás.”
O conceito de “exclusão digital” ganha contornos ainda mais graves nesse contexto. Trabalhadores manuais frequentemente não têm acesso a dispositivos tecnológicos, internet de qualidade ou formação para utilizar ferramentas digitais básicas. Isso os afasta não só de oportunidades de capacitação, mas também de processos seletivos, serviços públicos, plataformas de emprego e até direitos trabalhistas em ambientes digitais. “O Brasil tem um problema crônico: enquanto falamos em inteligência artificial, milhares de brasileiros ainda não têm nem conectividade básica. Isso afeta principalmente quem trabalha com o corpo, com a prática”, afirma João.
Além da automação tradicional, o avanço das plataformas digitais, como aplicativos de transporte, entrega e serviços gerais, criou uma nova categoria de trabalhador: o autônomo digitalizado. Apesar de aparentar autonomia, esse modelo frequentemente vem acompanhado de precarização, ausência de direitos trabalhistas e renda variável. Segundo estudos publicados na Revista Estudos Avançados da USP, essa “uberização” do trabalho transfere riscos para o trabalhador e reforça a instabilidade do emprego físico em tempos digitais.
João Ferrari observa que o setor varejista, por exemplo, já sente os efeitos diretos dessas mudanças. “Antes, o atendente era o coração da loja. Hoje, em muitas redes, você tem totens de autoatendimento e inteligência artificial fazendo sugestões de compra. Isso muda tudo, do perfil de contratação ao treinamento. E se o trabalhador físico não for incluído no processo de transição, ele será descartado”, alerta.
Entretanto, o futuro do trabalho físico não precisa, necessariamente, ser distópico. Governos, empresas e instituições educacionais têm um papel crucial na mitigação dos efeitos dessa transformação. Investimentos em educação tecnológica, inclusão digital, requalificação profissional e apoio psicológico são fundamentais para adaptar esse público às novas exigências do mercado.
Na avaliação de João Ferrari, a saída passa por responsabilidade social e visão de longo prazo. “Quem lidera empresas precisa entender que a tecnologia não pode andar sozinha. Ela precisa incluir, educar e capacitar. É nosso dever criar pontes entre o físico e o digital “, relata.
Ainda que a tecnologia seja inevitável, ela não precisa ser excludente. O desafio está em redesenhar as estruturas sociais e produtivas para garantir que o avanço digital seja sinônimo de progresso para todos, inclusive para quem carrega o país nas costas, com suor, dedicação e trabalho físico.

