
Paulo Mendes (*)
O ritmo das mudanças deixou de ser gradual e passou a ser exponencial. Com 2026 em pleno andamento, fica evidente que a liderança precisa integrar tecnologia, novas formas de trabalho e diferentes gerações em um modelo capaz de sustentar inovação, cultura e resultados. Depois de anos acompanhando a evolução da liderança no Brasil e em outros mercados, vejo que a capacidade de adaptação rápida passou a ser tão determinante quanto experiência ou visão estratégica.
O movimento já aparece nos dados do Board Monitor 2025, que indicam uma crescente prioridade dos conselhos por líderes preparados para lidar simultaneamente com inteligência artificial, cultura organizacional e gestão de riscos.
No entanto, o que observo no dia a dia das organizações vai além dos estudos. Empresas bem-sucedidas aprendem em ciclos curtos, revisam modelos, abandonam práticas que não funcionam e criam ambientes que sustentam decisões de qualidade mesmo em cenários incertos. Liderança deixa de ser apenas competência técnica ou habilidade interpessoal e passa a ser a capacidade de construir sistemas que evoluem continuamente.
A tecnologia amplia essa dinâmica. A adoção crescente de IA generativa, apontada no Future of Jobs 2025, transforma a forma como os executivos analisam dados, estruturam problemas e projetam alternativas. O líder de 2026 não será definido pelo domínio técnico, mas pela fluência para conectar tecnologia à performance das pessoas, ao desenvolvimento de talentos e à cultura.
Também há uma reconfiguração geracional relevante. Líderes mais jovens trazem velocidade, experimentação e intimidade com o digital. Líderes mais experientes oferecem contexto, narrativa e gestão de risco. O verdadeiro diferencial está em equipes que conseguem integrar essas forças sem perder coesão e direção.
Esse movimento se soma à mudança na relação entre profissionais e empresas. O levantamento da Heidrick & Struggles sobre “leading across boundaries”, baseado em uma pesquisa global com mais de 500 CEOs e membros de conselhos, mostra que quase dois terços consideram essa capacidade fundamental para alcançar os objetivos estratégicos de suas organizações. Na prática, isso significa que os líderes precisam ser capazes de navegar diferenças entre funções, geografias e expectativas de stakeholders, ao mesmo tempo em que criam ambientes onde diferentes perspectivas possam surgir e se alinhar em torno de decisões claras. Em um contexto cada vez mais polarizado e de rápidas mudanças, as pessoas procuram líderes que estejam presentes, sejam confiáveis e capazes de sustentar coesão e direção mesmo em momentos de tensão.
Com base no que vivencio em conselhos, sucessões e avaliações executivas, vejo a liderança de 2026 formada por quatro eixos essenciais: fluência tecnológica como capacidade de incorporar IA às decisões; habilidade de mobilizar pessoas em ambientes incertos; maturidade para equilibrar tensões entre velocidade e coerência ou entre eficiência e bem-estar; e construção de culturas que aprendem e se reinventam continuamente.
O líder que prosperará em 2026 será conhecido menos pela previsibilidade e mais pela adaptabilidade. Menos por controlar e mais por criar condições para que o talento floresça. Mais pela capacidade de ler sinais, conectar contextos e agir com clareza. Seu impacto será medido não apenas pelos resultados que entrega, mas pelo sistema de aprendizado, confiança e resiliência que ajuda a construir.
Organizações que desenvolverem esse perfil estarão preparadas para navegar um mercado que continuará mudando em profundidade e ritmo. As que permanecerem presas a modelos antigos descobrirão que a maior vulnerabilidade de uma empresa não está na tecnologia que ainda não domina, mas na liderança que não se transforma.
(*) Sócio e líder da Heidrick & Struggles na América Latina.
Adeus Liderança Feminina! – Jornal Empresas & Negócios
