Mauro Figueira (*)
A responsabilidade social corporativa tem se consolidado como parte importante da estratégia empresarial. Na prática, isso significa que as empresas passaram a considerar não apenas resultados financeiros, mas também seus impactos sociais e ambientais.
Esse debate tem evoluído de forma consistente no campo da gestão das pessoas, por exemplo, por meio da promoção da equidade e da diversidade no ambiente de trabalho, bem como de práticas voltadas ao bem-estar físico, mental e emocional dos colaboradores. Entretanto, ainda há um ponto sensível pouco enfrentado: o bem-estar financeiro dos trabalhadores no pós-carreira.
Esse descompasso se evidencia no tamanho da oferta de previdência complementar fechada pelas empresas a seus funcionários. Apesar de 4,4 mil empresas no Brasil oferecerem pelo menos um plano de previdência, essa quantidade ainda é muito pequena quando comparamos com o potencial de um país com a dimensão do mercado de trabalho brasileiro. Segundo dados do IBGE, em 2023 havia no Brasil cerca de 3 milhões de empresas, empregando 53 milhões de trabalhadores.
O salário médio desses trabalhadores era de R$ 3,7 mil enquanto a aposentadoria média paga pelo INSS no mesmo ano foi de R$ 1,7 mil. Na prática, isso significa que milhões de brasileiros precisarão reorganizar suas vidas com menos da metade da renda que tinham durante a ativa.
Nesse contexto, o avanço da longevidade no Brasil torna ainda maior esse desafio para nossa sociedade. De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, a expectativa de vida do brasileiro já ultrapassa os 76 anos, com tendência de crescimento nas próximas décadas. Considerando que a maior parte das aposentadorias concedidas em 2023 foi para pessoas com até 65 anos, isso representará pela menos 10 anos de vida com redução relevante da renda, em um período justamente quando muitas despesas, como as médicas, tendem a aumentar.
Esse cenário reforça um ponto central nessa discussão: a sustentabilidade da renda, da qualidade de vida e do bem-estar dos trabalhadores no período da aposentadoria depende em grande parte do avanço da previdência complementar fechada, que precisa ser oferecida por mais empresas.
Foi justamente para cobrir essa lacuna que surgiu a previdência complementar fechada. Sua origem está associada a atender uma necessidade concreta: profissionais que, ao se aposentarem, não conseguiam manter o padrão de vida construído ao longo da carreira. Os planos de previdência complementar fechada surgem como uma resposta estruturada ao desequilíbrio entre a renda ativa e a renda futura, oferecendo um mecanismo de proteção ao longo do ciclo de vida. Mas sua ampliação depende, em grande medida, da decisão das empresas de incorporá-la de fato às suas estratégias de responsabilidade social corporativa.
Portanto, embora a previdência complementar fechada possa influenciar positivamente a atratividade e a retenção de talentos pelas empresas, é importante destacar que seu papel vai além desse aspecto, atuando também como um relevante instrumento de proteção social e de planejamento de longo prazo, com impacto direto sobre o bem-estar futuro dos colaboradores.
Essa perspectiva dialoga diretamente com a dimensão social do ESG. Empresas que estruturam mecanismos de proteção de longo prazo não apenas apoiam seus colaboradores individualmente, mas também contribuem para mitigar riscos sociais mais amplos, associados ao aumento da longevidade e à insuficiência de renda na aposentadoria. Trata-se de uma atuação que transcende o vínculo empregatício e reforça o papel das organizações como agentes de desenvolvimento.
(*) – É Diretor-Presidente da Vexty e coordenador do Comitê de Ética da Associação Brasileira das Entidades Fechadas de Previdência (Abrapp).
