Ulisses Pincelli (*)
Antes de falar de estratégias, indicadores ou tecnologia, é preciso compreender o que realmente significa gerir.
Após quase quatro décadas como executivo, cheguei à convicção de que gestão é, sobretudo, a capacidade de tomar decisões consistentes e transformar decisões em ações que produzam resultados sustentáveis.
Minha formação em Engenharia proporcionou pensamento analítico, visão sistêmica e sólida base técnica. Logo descobri, porém, que processos, tecnologia e recursos não bastam. O maior desafio sempre esteve nas pessoas. Foi essa constatação que me levou a ampliar minha formação em Administração e a compreender que organizações bem sucedidas se sustentam sobre três pilares inseparáveis: pessoas, processos e sistemas.
Ao longo dos últimos 150 anos, a gestão evoluiu acompanhando profundas transformações econômicas e sociais. Das contribuições de Taylor, Fayol e Ford à Administração Moderna de Peter Drucker, consolidou-se a percepção de que o principal produto das lideranças são decisões e ações.
Hoje, contudo, decidir tornou-se exponencialmente mais complexo. Vivemos em um ambiente hiperconectado, marcado pela aceleração tecnológica, pela Inteligência Artificial, por tensões geopolíticas, mudanças demográficas, pressão por sustentabilidade e crescente sofisticação das estruturas de governança.
Nunca houve tantas informações disponíveis e, paradoxalmente, tanta incerteza sobre como utilizá-las. Nesse contexto, gerir significa alocar recursos escassos entre alternativas concorrentes, conciliando estratégia, execução e adaptação contínua. Exige visão de longo prazo sem perder velocidade de resposta, disciplina operacional sem comprometer inovação e foco em resultados sem negligenciar pessoas.
O papel da liderança também se ampliou. Não basta estabelecer metas ou controlar indicadores. É preciso criar propósito, desenvolver competências, fortalecer a cultura organizacional, compreender riscos, alinhar interesses dos diversos stakeholders e garantir que a estratégia seja efetivamente executada. Ao mesmo tempo, estruturas de governança passaram a desempenhar papel decisivo na perenidade das organizações. Conselhos e executivos compartilham hoje a responsabilidade de preservar valor, reputação e sustentabilidade, equilibrando crescimento com responsabilidade corporativa.
Algumas ideias permanecem atuais: quem não mede não gerencia; estratégia é decidir também o que não fazer; liderança não consiste em buscar popularidade, mas em fazer o necessário; e decisões precisam ser tomadas com as melhores informações disponíveis, seguidas da disciplina para executá-las.
Mais do que um conjunto de técnicas, gestão é uma disciplina que integra conhecimento, experiência, julgamento e capacidade de mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns. Seu propósito maior é criar valor de forma sustentável, harmonizando estratégia, recursos, processos, cultura e circunstâncias em ambientes cada vez mais dinâmicos e complexos.
Em última análise, gerir continua sendo uma arte fundamentada na técnica: a arte de decidir bem, agir com consistência e construir organizações capazes de prosperar em um mundo em permanente transformação.
(*) Ulisses Pincelli é Managing Director na WRIST Boa Praça
Sistemas integrados de gestão empresarial – Jornal Empresas & Negócios
