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Reflexões sobre Gestão

em Artigos
quarta-feira, 08 de julho de 2026

Ulisses Pincelli (*)  

Antes de falar de estratégias, indicadores ou tecnologia, é preciso compreender o que realmente significa gerir.

Após quase quatro décadas como executivo, cheguei à convicção de que gestão é, sobretudo, a capacidade de tomar decisões consistentes e transformar decisões em ações que produzam resultados sustentáveis.

Minha formação em Engenharia proporcionou pensamento analítico, visão sistêmica e sólida base técnica. Logo descobri, porém, que processos, tecnologia e recursos não bastam. O maior desafio sempre esteve nas pessoas. Foi essa constatação que me levou a ampliar minha formação em Administração e a compreender que organizações bem sucedidas se sustentam sobre três pilares inseparáveis: pessoas, processos e sistemas.

Ao longo dos últimos 150 anos, a gestão evoluiu acompanhando profundas transformações econômicas e sociais. Das contribuições de Taylor, Fayol e Ford à Administração Moderna de Peter Drucker, consolidou-se a percepção de que o principal produto das lideranças são decisões e ações.

Hoje, contudo, decidir tornou-se exponencialmente mais complexo. Vivemos em um ambiente hiperconectado, marcado pela aceleração tecnológica, pela Inteligência Artificial, por tensões geopolíticas, mudanças demográficas, pressão por sustentabilidade e crescente sofisticação das estruturas de governança.

Nunca houve tantas informações disponíveis e, paradoxalmente, tanta incerteza sobre como utilizá-las. Nesse contexto, gerir significa alocar recursos escassos entre alternativas concorrentes, conciliando estratégia, execução e adaptação contínua. Exige visão de longo prazo sem perder velocidade de resposta, disciplina operacional sem comprometer inovação e foco em resultados sem negligenciar pessoas.

O papel da liderança também se ampliou. Não basta estabelecer metas ou controlar indicadores. É preciso criar propósito, desenvolver competências, fortalecer a cultura organizacional, compreender riscos, alinhar interesses dos diversos stakeholders e garantir que a estratégia seja efetivamente executada. Ao mesmo tempo, estruturas de governança passaram a desempenhar papel decisivo na perenidade das organizações. Conselhos e executivos compartilham hoje a responsabilidade de preservar valor, reputação e sustentabilidade, equilibrando crescimento com responsabilidade corporativa.

Algumas ideias permanecem atuais: quem não mede não gerencia; estratégia é decidir também o que não fazer; liderança não consiste em buscar popularidade, mas em fazer o necessário; e decisões precisam ser tomadas com as melhores informações disponíveis, seguidas da disciplina para executá-las.

Mais do que um conjunto de técnicas, gestão é uma disciplina que integra conhecimento, experiência, julgamento e capacidade de mobilizar pessoas em torno de objetivos comuns. Seu propósito maior é criar valor de forma sustentável, harmonizando estratégia, recursos, processos, cultura e circunstâncias em ambientes cada vez mais dinâmicos e complexos.

Em última análise, gerir continua sendo uma arte fundamentada na técnica: a arte de decidir bem, agir com consistência e construir organizações capazes de prosperar em um mundo em permanente transformação.

(*) Ulisses Pincelli é Managing Director na WRIST Boa Praça

Sistemas integrados de gestão empresarial – Jornal Empresas & Negócios