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Quem decide agora: o líder ou a inteligência artificial?

em Artigos
sexta-feira, 10 de abril de 2026

Dhiogo Corrêa (*)

Imagine se o seu gestor fosse uma inteligência artificial. Será que esse cenário já é uma realidade possível?

A meu ver, não completamente. De acordo com uma pesquisa realizada pela consultoria Korn Ferry, 47% das empresas utilizam IA generativa em processos de recursos humanos. O estudo aponta que a tecnologia está desafiando a capacidade de adaptação dos líderes, sendo necessário integrar os dados à inteligência emocional e ao senso crítico.

A tecnologia já desempenha funções cruciais de liderança, como identificação de padrões, simulação de cenários, análise de dados em grande escala e recomendações estratégicas baseadas em evidência. Sistemas avançados permitem transformar esse volume de informações em insights acionáveis.

No entanto, em minha concepção, os seres humanos conseguem lidar com aspectos que a IA não é capaz: a gestão emocional de equipes e a negociação de interesses conflitantes; atribuições essas que exigem o discernimento e a empatia que só a liderança humana possui.

É nessa interseção que o modelo de colaboração se define. O sistema pode sugerir e o humano decidir, ou a inteligência artificial pode executar decisões baseadas em regras previamente estabelecidas, sendo altamente eficaz em processos repetitivos. Entendo que delegar tarefas para a IA não isenta o líder de suas escolhas: a responsabilidade final pelos resultados permanece sendo humana, especialmente nos momentos em que a tecnologia falha.

Quando surgem as crises, os modelos ainda não possuem o repertório necessário para solucioná-las com a mesma eficácia que os humanos. Enquanto o algoritmo opera em lógica binária, as decisões dos líderes são fundamentadas em experiência e narrativa estratégica.

É justamente por esse motivo que a responsabilidade final é estritamente humana. Se a IA falha, o ‘dono do risco’ não é o código, mas o gestor, a empresa e os responsáveis pela governança do sistema. A tecnologia é um braço direito, mas o compromisso com as consequências, sejam elas os benefícios da eficiência ou os riscos da automação, permanece com a liderança.

Apesar de a automação gerar decisões mais rápidas e aumentar a produtividade, os modelos treinados com dados históricos podem reproduzir discriminações, erros estruturais e decisões injustas, além de escalar rapidamente esses equívocos. As empresas precisam tratar essa inovação como sistema de apoio cognitivo, não substituto da liderança, evitando a dependência excessiva e perda de pensamento crítico.

O líder do futuro permanece como o detentor da decisão final, utilizando a IA para potencializar a detecção de riscos e a simulação de cenários. A tecnologia deve atuar como um copiloto estratégico, mas a visão e o julgamento pleno continuam sendo competências essencialmente humanas.

(*) – Professor convidado das disciplinas de Machine Learning e Deep Learning no MBA da UFSCar, é cofundador e CTO da Draiven (https://draiven.io/).

O impacto da Inteligência Artificial no processo de inovação das empresas – Jornal Empresas & Negócios