Igor Meireles (*)
Há alguns meses, conversei com o CFO de uma empresa brasileira de tecnologia com subsidiária nos Estados Unidos. Durante uma due diligence, ele foi questionado sobre uma divergência que parecia simples: o dinheiro enviado do Brasil para a operação americana aparecia como empréstimo no balanço brasileiro e como aporte de capital no americano. Nenhum dos dois contadores soube explicar o motivo.
Essa situação se repete em boa parte das empresas com as quais converso. A operação brasileira tem sua contabilidade, a entidade americana tem outra, e o founder ou CFO acaba assumindo o papel de gerente de projeto entre os dois profissionais, tentando garantir que os números façam sentido em conjunto.
Ter contabilidades separadas em cada país é normal e até esperado. O problema começa quando não há ninguém responsável por garantir que as informações das duas operações sejam conciliadas. Um serviço entre empresas do mesmo grupo pode ser reconhecido em meses diferentes, enquanto um reembolso pode aparecer como receita de um lado e redução de custo do outro. Quando chega o momento de consolidar os números, as contas não fecham.
No dia a dia, essas divergências podem passar despercebidas, porque as obrigações de cada país continuam sendo entregues. A inconsistência costuma aparecer quando alguém coloca os dois balanços lado a lado, geralmente durante uma captação, uma auditoria ou um processo de venda da empresa.
É nesse momento que uma pergunta básica pode levar semanas para ser respondida. Para o investidor, a dificuldade de explicar os próprios números levanta dúvidas sobre o controle financeiro e a organização da empresa. Isso pode afetar a percepção de risco, o valuation e até as garantias negociadas no contrato.
Costumo dizer aos clientes que a due diligence não é o momento de arrumar a casa, mas aquele em que o investidor verifica se ela já estava organizada.
Há também uma dimensão tributária que merece atenção. Uma decisão tomada considerando apenas as regras de um país pode gerar custos fiscais no outro e aumentar a carga tributária total do grupo. Uma cobrança por serviços entre empresas relacionadas, por exemplo, reduz o lucro de uma operação e aumenta o da outra. Se os profissionais responsáveis trabalham de forma isolada, fica mais difícil avaliar os efeitos dessa movimentação sobre o conjunto do negócio.
Por isso, a integração entre as contabilidades brasileira e americana não deve acontecer apenas quando surge uma demanda extraordinária. Ela precisa fazer parte da rotina da empresa, com acompanhamento das transações entre as operações, conciliação dos saldos, documentação das movimentações e alinhamento sobre os critérios contábeis e tributários adotados em cada país.
Uma rotina mensal de fechamento integrado, conhecida como monthly close package, ajuda a identificar e corrigir divergências antes que elas se acumulem. Mais do que organizar os números para uma futura captação, esse processo permite acompanhar a operação com mais clareza e tomar decisões considerando os impactos nos dois países.
Uma empresa não se internacionaliza de fato apenas porque abre uma estrutura societária no exterior. A internacionalização também exige capacidade de administrar as diferentes operações como partes de um mesmo negócio, com informações consistentes e uma visão integrada dos resultados.
Brasil e Estados Unidos não precisam ter as mesmas regras contábeis ou tributárias. Mas os números das duas operações precisam contar a mesma história, especialmente quando um investidor decide olhar para eles.
(*) Igor Meireles é sócio da área Contábil & Tributária da Bernhoeft e especialista em tributação e planejamento patrimonial internacional.
