Precisamos enxergar além das tendências

Felipe Gomes (*)

Nenhuma grande mudança acontece do nada, sem motivos.

Nos últimos meses, assistimos a tendências que surgiam lentamente tornarem-se uma realidade muito mais depressa do que poderíamos imaginar. No meio de uma crise sem precedentes, e que afeta o mundo inteiro, tivemos que acelerar o passo e nos adaptar ao ritmo e ao contexto impostos pelo cenário atual. O digital, que era futuro, virou imediato, impossível deixar para depois.

Nossas rotinas foram as primeiras a sofrer os impactos, com a transição das atividades nos escritórios para o ‘home office’. Com isso, notamos que comportamentos e hábitos também mudaram radicalmente. Aprendemos a nos exercitar dentro de casa, assistimos à explosão das compras por e-commerce e dos serviços de delivery. Passamos a compartilhar mais refeições com a família inteira à mesa.

E agora, nos perguntamos: de todas essas transformações, quais realmente vieram para ficar? Muito se fala no “novo normal”, mas eu acredito que deveríamos tentar, antes, entender o que vai ser normal de fato ou não. O que mudou e o que permanece. Só então será possível pensar no “novo”.

O que eu observo diariamente, e com base nas últimas pesquisas realizadas pela Ticket, é que a maior parte das pessoas e das empresas já se adaptaram ao trabalho remoto – muitas, inclusive, devem incorporar esse sistema em definitivo. De acordo com último levantamento, 82% das mulheres entrevistadas estão completamente satisfeitas ou muito satisfeitas com o teletrabalho, enquanto entre os homens o índice é de 76%.

Pensar sobre a satisfação das pessoas, quando associadas a indicadores de produtividade e desempenho, é um caminho para ajudar empresas e pessoas a decidirem, conjuntamente, sobre novas possibilidades de caminhar. Outro ponto de reflexão sobre o futuro que considero importante tem relação com um estudo do Google Academy divulgado recentemente, em que fica evidente o quanto os consumidores têm buscado, cada vez mais, soluções digitais que ofereçam entretenimento e mais conforto para a rotina dentro de casa.

Com isso, a demanda de pedidos de comida por aplicativos, por exemplo, também se consolida como uma realidade. Na Ticket, desenvolvemos novos jeitos de atender melhor e de maneira mais ampla a essa demanda, conectando beneficiados com estabelecimentos com maior eficiência e capilaridade. E isso não tem mais volta. A grande questão é que, além de se adequarem a essas mudanças, entendendo o que deixou de ser tendência e se transformou em realidade duradoura, as empresas também precisam ser ágeis nesses processos.

Se tem algo que os últimos cinco meses ensinaram é que inovação deixou de ser um atributo especial para se tornar um ativo essencial na continuação e perenidade dos negócios. Inovação não é mais o laboratório de construção de futuro, é a prancheta de soluções para o agora.

Na 32ª edição do Congresso Abrasel, por exemplo, esse aspecto foi discutido no painel “Como o governo federal atuará na recuperação do setor pós crise”, com participação do Secretário Especial de Produtividade, Emprego e Competitividade, Carlos Alexandre Jorge Da Costa, que sinalizou apoio à digitalização das pequenas e médias empresas no Brasil através de iniciativas conjuntas com a ABDI (Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial), com o Sebrae e com o Senai.

Além de tornar os processos internos mais inteligentes de dinâmicos, a digitalização é fundamental no processo de entender o comportamento dos clientes, dos consumidores e dos colaboradores. Mais do que nunca, as interações sociais têm um impacto enorme nos modelos de negócio e, nesse contexto, as tendências refletem as principais necessidades das pessoas e nos permitem pensar à frente, com respostas mais rápidas e eficientes aos desafios do mercado.

Afinal, quando falamos em tendência, também falamos em enxergar o outro. E esse é o fio condutor de todo negócio – ou pelo menos deveria ser.

(*) – É Diretor-Geral da Ticket (www.ticket.com.br).

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