Alexandre Fernandes (*)
Há histórias que nascem sem a pretensão de virar negócio. E, talvez por isso mesmo, carreguem uma força tão genuína. A nossa começou assim, quase por acaso, dentro de casa. Meu pai, fotógrafo por profissão e colecionador por paixão, começou a comprar e guardar pequenos objetos: santinhos, peças antigas, fragmentos de memória. Minha mãe, com a lucidez prática de quem enxerga o futuro antes dos outros, brincou que ele acabaria virando um acumulador. Foi ela quem sugeriu: por que não vender?
Assim nasceram os Pescadores de Relíquias.
O que era um gesto doméstico, quase íntimo, logo encontrou eco em outras pessoas. Porque o que meu pai colecionava não eram apenas objetos, e, sim, histórias. E histórias, quando compartilhadas, criam vínculos. O antiquário cresceu, ganhou forma, atravessou gerações. Hoje, somos nós, os quatro irmãos, que tocamos o negócio ao lado dos nossos pais. Não foi um plano traçado com rigor; foi uma construção orgânica. À medida que a empresa se expandia, cada um de nós foi chegando, ocupando seu lugar, entendendo seu papel. E crescemos.
Crescemos em afeto, em propósito, e também em números. Em apenas três anos, vimos o negócio se transformar. E, neste ano, em apenas quatro meses, já quase alcançamos o dobro de todo o faturamento de 2025. Recentemente, demos mais um passo importante: adquirimos um terreno de aproximadamente R$ 500 mil para expandir ainda mais esse sonho que começou dentro de casa, entre caixas e memórias.
Mas talvez o que mais nos surpreenda não seja o crescimento financeiro. Criamos, sem perceber, um mundo à parte, um mundo mais humano.
As vendas acontecem pelo WhatsApp, duas vezes por dia. Mas reduzir isso a “vendas” seria simplificar demais. O que acontece ali é encontro. Conversa. Troca. A experiência de comprar nos Pescadores de Relíquias passa inevitavelmente pela relação. A gente fala, escuta, ri junto. Aos poucos, os clientes deixam de ser clientes, tornam-se próximos. Em muitos casos, amigos.
Já recebemos relatos que nos atravessam profundamente. Pessoas que estavam enfrentando a depressão, que tinham perdido alguém querido, que se sentiam sozinhas. E que, ao participar do grupo, encontraram algum tipo de acolhimento. Não é sobre o objeto em si, embora ele seja importante. É sobre o que ele carrega: memória, afeto, continuidade.
Cada peça tem uma história. Algumas, inclusive, poderiam estar em museus. Outras são mais silenciosas, mas não menos potentes: lembram a xícara da avó, o broche da mãe, o móvel da infância. São objetos que funcionam como pontes, entre tempos, entre pessoas, entre sentimentos.
Talvez seja por isso que o universo dos antigos esteja vivendo um momento tão forte. Em um mundo acelerado, em que tudo é descartável e imediato, o antigo oferece permanência. Oferece raiz. Há uma busca crescente por aquilo que já provou seu valor ao longo do tempo. E, mais do que isso, há um desejo de pertencimento, de se reconectar com algo que faça sentido. Nos antiquários, nada é apenas “coisa”. Tudo é narrativa.
E, nesse processo, também nós nos transformamos. Para mim, pessoalmente, há uma realização difícil de traduzir. Fazer parte de algo que nasceu do desejo simples do meu pai e que hoje impacta tantas pessoas é um privilégio. Não é apenas dar continuidade a um negócio. Sentimos que estamos cuidando de um legado. E, também, criando novos.
Lembro quando comemoramos os primeiros R$ 10 mil em vendas. Parecia enorme. Hoje, olhando para trás, percebemos que aquele número já carregava o essencial: uma comunidade que se reconhece, que se encontra, que se importa. Os Pescadores de Relíquias nunca foram apenas sobre vender antiguidades. Tudo é sobre resgatar histórias. E, de alguma forma, ajudar as pessoas a reencontrarem as suas.
(*) Diretor do Pescadores de Relíquias.
Mais de 60% de desligados que viraram MEI agiram por necessidade – Jornal Empresas & Negócios
