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O papel do governo e da sociedade civil organizada na regulamentação da IA 

em Artigos
terça-feira, 25 de agosto de 2026

Luciana Maselli (*)

O avanço crescente da Inteligência Artificial em múltiplos setores da sociedade impõe uma reflexão aprofundada sobre os marcos regulatórios necessários para garantir desenvolvimento e aplicação éticos, seguros e responsáveis. Os algoritmos influenciam hoje desde a moderação de conteúdos digitais até decisões administrativas, acesso a crédito, políticas públicas e oportunidades de trabalho. Nesse contexto, a governança da IA deixa de ser um debate somente técnico e passa a constituir uma questão central de democracia, direitos humanos e cidadania.

Sistemas de IA aprendem a partir de dados históricos. Em sociedades marcadas por desigualdades estruturais, esses dados frequentemente reproduzem padrões discriminatórios. Isso pode resultar em exclusão algorítmica, invisibilização de denúncias, reforço de estereótipos e ampliação de violências digitais, especialmente contra mulheres e crianças. Mais do que conter riscos, a regulação contribui para a confiança pública na tecnologia e no setor público. Por isso, cabe ao Estado assegurar que sistemas de IA estejam alinhados à Constituição, à proteção de direitos fundamentais, às políticas de igualdade e a princípios éticos e responsáveis. 

A estratégia nacional propõe regular sistemas de alto risco para proteger direitos humanos e valores democráticos sem inviabilizar a inovação. 

Entre as funções centrais do poder público destacam-se: 

• Estabelecer critérios de avaliação de risco e impacto algorítmico; 

• Exigir transparência e rastreabilidade de sistemas; 

• Garantir supervisão humana em decisões automatizadas; 

• Estruturar governança robusta de dados; 

• Assegurar mecanismos de contestação acessíveis aos cidadãos e responsabilização pelas decisões automatizadas. 


No entanto, a regulamentação da IA não pode ser construída apenas por governos e empresas. Organizações da sociedade civil desempenham função estratégica na produção de evidências, no monitoramento de impactos e na incidência legislativa. Essa participação é condição para evitar que normas sejam excessivamente técnicas ou capturadas por interesses econômicos. 

Entre suas contribuições centrais estão:

• Produção de estudos independentes sobre impactos sociais da IA; 

• Advocacy por direitos digitais e igualdade de gênero; 

• Educação e letramento algorítmico e digital; 

• Monitoramento das implementações; 

• Denúncia de discriminações automatizadas. 


A relevância da regulação não se limita à mitigação de riscos. Ela também cria condições estruturais para inovação responsável e sustentável. Normas claras reduzem incertezas jurídicas, aumentam a confiança institucional e estimulam investimentos tecnológicos alinhados ao interesse público. A direção do desenvolvimento da IA não é determinada apenas pela tecnologia, mas pelas escolhas institucionais e políticas que orientam seu uso. Regular a IA, portanto, não significa restringir o progresso tecnológico, mas moldá-lo de forma democrática, inclusiva e orientada por direitos. A governança da inteligência artificial é, em última instância, um projeto coletivo de sociedade. Seu sucesso dependerá da capacidade de articulação entre Estado, sociedade civil, academia e setor produtivo para garantir que a tecnologia sirva ao interesse público e não o contrário. 

(*) Luciana Maselli é fundadora do ImpactAI, organização especializada em inteligências artificial aplicada.