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O papel da liderança em tempos de Inteligência Artificial

em Artigos
sexta-feira, 19 de dezembro de 2025

Ciro Jacob (*)

A Inteligência Artificial deixou de ser uma promessa tecnológica para se tornar uma força estruturante da economia, da gestão e das relações de trabalho. Em um intervalo surpreendentemente curto, algoritmos passaram a apoiar decisões estratégicas, automatizar processos complexos e redefinir a produtividade em praticamente todos os setores. Nesse cenário, o papel da liderança não diminui, ao contrário, torna-se mais crítico, mais humano e mais estratégico do que nunca.

Ao longo de ciclos anteriores de transformação tecnológica, líderes foram desafiados a adotar novas ferramentas. No ciclo da IA, o desafio é mais profundo: trata-se de liderar em um ambiente onde o conhecimento técnico se acelera mais rápido do que a capacidade organizacional de assimilá-lo. A liderança, portanto, deixa de ser apenas operacional ou hierárquica e passa a ser essencialmente interpretativa, alguém que traduz tecnologia em valor, risco em decisão e dados em direção estratégica.

Um dos principais equívocos em torno da IA é tratá-la como um substituto direto da liderança humana. A realidade aponta para o oposto. Quanto mais decisões são automatizadas, maior é a necessidade de líderes capazes de definir critérios, limites éticos e objetivos claros para essas decisões. Algoritmos não possuem contexto moral, visão de longo prazo nem responsabilidade social. Cabe à liderança garantir que o uso da IA esteja alinhado à estratégia do negócio, à cultura organizacional e aos valores da sociedade.

Outro aspecto central é a gestão do medo e da ansiedade. A introdução acelerada da IA gera insegurança legítima nas equipes, receio de substituição, perda de relevância profissional e aumento da pressão por performance. Liderar nesse contexto exige comunicação transparente, educação contínua e um reposicionamento claro do discurso: a IA não elimina pessoas, mas elimina tarefas. O líder do presente precisa ser um curador de talentos, ajudando profissionais a migrar de funções repetitivas para atividades de maior valor cognitivo, criativo e relacional.

A liderança em tempos de IA também demanda uma mudança profunda na tomada de decisão. Dados e modelos preditivos ampliam a capacidade analítica, mas não substituem o julgamento. O risco é criar organizações excessivamente dependentes de dashboards, métricas e recomendações algorítmicas, perdendo sensibilidade para fatores intangíveis como reputação, impacto social e timing político. O bom líder é aquele que sabe quando seguir os dados e quando questioná-los.

Há ainda uma dimensão ética incontornável. Questões como viés algorítmico, privacidade de dados, transparência e responsabilidade jurídica não podem ser delegadas exclusivamente a times técnicos. Elas são, antes de tudo, decisões de liderança. Em um ambiente regulatório cada vez mais atento, empresas serão cobradas não apenas pelo que a IA faz, mas por como e por que ela faz. A governança da Inteligência Artificial torna-se, assim, um tema de conselho, e não apenas de TI.

Do ponto de vista organizacional, a IA também redefine estruturas de poder. Informações que antes estavam concentradas em níveis superiores passam a ser acessíveis em tempo real. Isso exige líderes menos centralizadores e mais facilitadores, capazes de criar ambientes de autonomia responsável. Liderar deixa de ser controlar e passa a ser habilitar, remover obstáculos, orientar prioridades e construir confiança em sistemas híbridos, onde humanos e máquinas colaboram.

Por fim, talvez o maior desafio da liderança na era da IA seja preservar aquilo que a tecnologia não pode replicar: propósito, empatia, visão e senso de pertencimento. Em um mundo cada vez mais automatizado, pessoas não seguem líderes por eficiência algorítmica, mas por significado. Organizações que prosperarão não serão as que apenas adotarem IA mais rápido, mas aquelas cujos líderes conseguirem integrar tecnologia e humanidade de forma coerente.

A Inteligência Artificial não redefine apenas modelos de negócio; ela redefine o próprio conceito de liderança. O líder do futuro, que já é o líder do presente, será aquele capaz de combinar inteligência técnica com maturidade emocional, visão estratégica com responsabilidade ética, e inovação com senso humano. Em tempos de IA, liderar é, acima de tudo, saber decidir o que nunca deve ser automatizado.

(*) Especialista em liderança, transformação digital e estratégia organizacional.