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O caminho para um Brasil mais Inclusivo passa por uma aplicação da tecnologia com propósito

em Artigos
quinta-feira, 24 de julho de 2025

Monica Lupatin (*)

Vivemos um momento em que a tecnologia deixou de ser apenas uma ferramenta de conveniência para se tornar um instrumento essencial de transformação social. Em um país diverso e desigual como o Brasil, as chamadas socialtechs — startups ou organizações que aliam inovação tecnológica à resolução de desafios sociais — têm desempenhado um papel fundamental na construção de uma sociedade mais justa, acessível e inclusiva.

Ao longo dos meus mais de 30 anos de atuação no campo da diversidade e inclusão, presenciei muitas promessas e intenções. Mas foi com o avanço de produtos das tecnologias assistivas e a emergência de soluções com propósito que começamos, de fato, a romper barreiras antes consideradas intransponíveis. A inclusão deixou de ser um discurso abstrato e passou a se concretizar em ações práticas e mensuráveis — muitas vezes lideradas por socialtechs.

Essas iniciativas nascem da escuta ativa de comunidades historicamente invisibilizadas. Um exemplo concreto do impacto da tecnologia na inclusão é o uso de aplicativos e plataformas que conectam pessoas surdas a pessoas ouvintes por meio de intérpretes de Libras em tempo real. Essas soluções surgem da urgência de garantir à comunidade surda o direito fundamental de se comunicar em sua própria língua.

O impacto vai muito além da simples mediação linguística — trata-se de promover autonomia, dignidade e equidade. Imagine uma pessoa surda em uma emergência médica, em uma entrevista de emprego ou buscando atendimento em um serviço público. Nessas situações, o acesso imediato a um intérprete pode representar a diferença entre ser incluído ou ser completamente silenciado.

A transformação promovida por tecnologias como essas vai além da inovação: ela reposiciona a pessoa com deficiência no centro do debate, não como alguém a ser “ajudado”, mas como cidadão de direitos. Esse olhar é essencial para que possamos evoluir de uma perspectiva assistencialista para uma abordagem baseada na equidade, onde a tecnologia não é um privilégio, mas um direito.

Quando falamos em acessibilidade digital, falamos também de oportunidades de trabalho, de inclusão escolar, de acesso à saúde, de consumo em shoppings e lojas, de participação política. E é nesse ponto que as socialtechs ganham ainda mais relevância. Elas atuam onde muitas vezes o Estado ou o mercado tradicional não alcançam, com agilidade, empatia e inovação.

Por isso, defender e fomentar o ecossistema de socialtechs é investir no futuro que queremos construir: um Brasil onde todas as pessoas, independentemente de suas condições físicas, sensoriais ou cognitivas, tenham as mesmas possibilidades de participação, desenvolvimento e protagonismo.

Tecnologia com propósito não é um luxo. É uma urgência. E é, sem dúvida, uma das chaves para transformar realidades, reduzir desigualdades e fortalecer os pilares de uma democracia verdadeiramente inclusiva.
Se queremos um país mais acessível, precisamos começar valorizando quem já está construindo essa mudança — todos os dias, com coragem, inovação e propósito. A construção de um país mais inclusivo depende de escolhas.

E escolher investir em tecnologia assistiva é escolher uma sociedade onde ninguém fique para trás.

(*) – É Diretora de Negócios do ICOM (https://www.icom.app/).