Thiago Artacho (*)
No atual cenário do varejo, marcado por margens apertadas, competitividade crescente e consumidores cada vez mais exigentes, a eficiência operacional deixou de ser um diferencial para se tornar uma questão de sobrevivência. E, nesse contexto, a tecnologia surge como um recurso indispensável. No entanto, um alerta se faz necessário: tecnologia sem processo bem definido é desperdício.
Muitas empresas ainda acreditam que investir em soluções tecnológicas é, por si só, garantia de modernização e resultados. Um estudo do relatório Connected Shoppers Report, da Salesforce, apontava no princípio do ano que 73% dos varejistas no Brasil planejam aumentar seus investimentos em inteligência artificial (IA) em 2025. O discurso pode ser lindo, mas a realidade é que a tecnologia, por mais avançada que seja, não opera milagres isoladamente. Ela exige contexto, estratégia e, acima de tudo, processos bem desenhados para funcionar com máxima eficácia.
Tenho acompanhado de perto a jornada de transformação digital de redes varejistas de todos os portes. Grandes redes como Magazine Luiza, Carrefour e Via Varejo vêm utilizando IA para prever padrões de compra, antecipar rupturas de estoque, ajustar preços em tempo real e até prever fraudes com mais precisão. Mas em geral o que percebo, com frequência, é uma corrida desenfreada por inovação, sem a devida análise de maturidade dos processos internos. O resultado? Soluções subutilizadas, baixa adesão das equipes e retorno sobre o investimento aquém do esperado.
Tecnologia deve ser uma ferramenta a serviço do processo — e não o contrário. A implementação de um sistema de gestão de estoque, por exemplo, só será bem-sucedida se houver uma política clara de inventário, padronização de entradas e saídas, e treinamento adequado da equipe operacional. Um dos pontos mais sensíveis no varejo é o controle de perdas — sejam elas por furtos, erros operacionais, falhas logísticas ou quebras.
O investimento em tecnologias como monitoramento inteligente, sensores de prateleira, câmeras com IA e sistemas preditivos pode trazer excelentes resultados. Mas, para isso, é preciso entender o ciclo completo da operação.
Sem um diagnóstico preciso das causas das perdas, a tecnologia será apenas um paliativo caro. Com dados bem tratados, processos mapeados e KPIs claros, é possível utilizar ferramentas tecnológicas para atuar preventivamente, reduzir desperdícios e garantir um ganho direto na margem do negócio.
Outro erro comum no setor é a implementação de tecnologias de forma isolada, sem integração com os sistemas e processos já existentes. A eficiência operacional só acontece quando há comunicação entre as áreas, integração entre plataformas e visão unificada dos dados. Soluções em nuvem, IoT, inteligência artificial e automação são extremamente poderosas quando utilizadas em sinergia com os processos e a estratégia da empresa. Aqui, a palavra-chave é orquestração: cada tecnologia precisa estar alinhada com um objetivo claro e mensurável.
Mais do que infraestrutura ou softwares de ponta, a transformação digital depende de pessoas preparadas e de uma cultura organizacional voltada para a inovação contínua. Investir em capacitação, estimular a mentalidade orientada a dados e envolver todas as áreas no processo são passos fundamentais para que a tecnologia cumpra seu papel.
Acredito que o sucesso da inovação está no equilíbrio entre processo, tecnologia e pessoas. O trabalho com redes varejistas tem mostrado que, quando esse tripé está bem estruturado, os resultados aparecem — seja na redução de custos, no aumento da produtividade ou na melhoria da experiência do cliente.
A tecnologia é, sem dúvida, uma grande aliada do varejo moderno. Mas, antes de investir, reflita sobre os processos da sua empresa. Eles estão preparados para receber a tecnologia? Se a resposta for não, o primeiro passo não é comprar um novo sistema — é rever a base sobre a qual ele será implementado.
(*) – É CEO da Green Tech Solutions (https://greenretailsolutions.com.br).
