Ricardo Hilgenberg (*)
A inteligência artificial já faz parte do presente e terá um papel central no futuro do trabalho. Sua capacidade de organizar informações, explorar alternativas e acelerar análises oferece recursos extraordinários aos profissionais. Aproveitar esse potencial faz sentido. O desafio é garantir que o pensamento crítico continue no centro do trabalho, orientando o uso da tecnologia e as decisões tomadas com seu apoio.
Em poucos segundos, ferramentas de IA generativa ajudam a redigir comunicados, resumir documentos, estruturar apresentações e examinar problemas sob diferentes perspectivas. Essa agilidade pode liberar tempo para atividades que exigem atenção, experiência e conhecimento do negócio. Para transformar velocidade em qualidade, porém, é preciso compreender o que foi produzido e avaliar se a resposta atende à situação concreta.
Esse cuidado se torna especialmente relevante quando recebemos uma análise clara, convincente e bem organizada. A qualidade da apresentação pode facilitar sua aceitação, mesmo quando faltam informações ou alguma premissa merece ser revista. Uma resposta pode parecer completa sem considerar tudo o que importa para aquela decisão.
Uma pesquisa apresentada na conferência CHI 2025, por pesquisadores da Carnegie Mellon University e da Microsoft Research, ouviu 319 profissionais e reuniu 936 exemplos de uso de IA no trabalho. Maior confiança na ferramenta esteve associada a menor exercício de pensamento crítico relatado pelos participantes; maior confiança na própria capacidade esteve associada a mais pensamento crítico. Por se basear em autorrelatos, o estudo não demonstra que a IA cause perda de capacidade intelectual. Seus resultados ajudam a discutir como avaliamos as respostas que recebemos.
Existe uma diferença entre receber uma boa análise e desenvolver a capacidade de produzir uma boa análise. Um profissional pode recorrer à IA para comparar soluções, identificar riscos e construir uma recomendação. Esse apoio ganha valor quando ele examina as alternativas, verifica as informações relevantes e consegue explicar por que a conclusão faz sentido. Se apenas reproduz o resultado, perde uma oportunidade de exercitar o próprio julgamento.
No ambiente empresarial, esse julgamento é indispensável. Decisões envolvem informações incompletas, relações entre pessoas, limitações operacionais e particularidades que nem sempre estão disponíveis para a ferramenta. Uma proposta tecnicamente coerente pode ser inadequada ao momento da organização. Cabe ao profissional reconhecer essas condições e assumir a responsabilidade pela escolha.
Por isso, saber formular bons comandos é apenas parte da competência necessária. Também precisamos perguntar: quais premissas sustentam esta resposta? As fontes são confiáveis? Que informações estão ausentes? Existe outra interpretação possível? O cuidado deve acompanhar a importância da tarefa: uma sugestão de redação e uma decisão estratégica exigem níveis diferentes de verificação.
Para as áreas de treinamento e desenvolvimento, isso representa uma oportunidade. A formação em IA deve combinar domínio das ferramentas com conhecimento do negócio, avaliação de evidências e prática de tomada de decisão. Exercícios em que os profissionais comparam uma resposta gerada pela tecnologia com sua própria análise, identificam limitações e justificam suas escolhas podem ajudar a desenvolver essa combinação.
A própria IA pode apoiar esse aprendizado. Podemos pedir que apresente objeções a uma proposta, explore cenários alternativos ou aponte questões que merecem investigação. Usada dessa maneira, ela amplia as possibilidades de reflexão. O tempo economizado na execução pode ser reinvestido na compreensão do problema e na avaliação das soluções.
Acredito que o maior valor da inteligência artificial está nessa parceria: a tecnologia oferece agilidade e recursos; as pessoas dão direção ao trabalho, interpretam o contexto e respondem pelas decisões. Quanto mais incorporamos a IA à rotina, mais precisamos preservar o hábito de questionar, compreender e julgar. Saber obter boas respostas é valioso. Saber avaliá-las continua sendo essencial.
(*) Consultor e especialista em aprendizagem e desenvolvimento corporativo, com experiência internacional e foco na integração entre tecnologia, capacitação de equipes e necessidades do negócio.
