(*) Gabriella Bighetti
Muito se fala sobre os desafios enfrentados pelas juventudes em situação de vulnerabilidade, mas ainda discutimos pouco o potencial econômico que pode ser gerado quando esses jovens têm acesso a oportunidades de desenvolvimento. A inclusão produtiva não é apenas uma ferramenta de transformação individual. Ela é também uma estratégia capaz de impulsionar a economia, fortalecer empresas e reduzir desigualdades sociais de forma sustentável.
Os resultados da Avaliação de Impacto do programa Juventudes Potentes, articulado pela United Way Brasil, mostram exatamente isso. O estudo, realizado com 600 jovens da cidade de São Paulo que participaram das iniciativas da rede nos últimos cinco anos, revelou um aumento de 72% na renda média mensal dos participantes, além de uma redução significativa no número de jovens fora do mercado de trabalho.
Embora esses números sejam expressivos por si só, eles representam algo ainda maior. Quando um jovem conquista uma oportunidade de trabalho, amplia sua renda e continua estudando, os benefícios ultrapassam a esfera individual. Eles alcançam famílias, comunidades e o próprio desenvolvimento econômico dos territórios onde esses jovens vivem.
Um estudo realizado pela consultoria Accenture em 2020 identificou que incluir produtivamente os jovens-potência pode somar até 0,3% ao PIB da cidade de São Paulo, um total de R$ 2 bilhões.
A inclusão produtiva tem o potencial de romper ciclos históricos de exclusão. Em muitos casos, jovens das periferias enfrentam barreiras relacionadas à renda, acesso à educação, mobilidade urbana e redes de contatos profissionais. Essas limitações acabam restringindo suas oportunidades de inserção e crescimento no mercado de trabalho, mesmo quando possuem talento, capacidade e disposição para aprender.
Por isso, é fundamental compreender que o desafio não está na falta de potencial das juventudes, mas na construção de caminhos que permitam transformar esse potencial em oportunidades concretas. Quando oferecemos acesso à qualificação, orientação profissional e conexão com vagas de trabalho, criamos condições para que esses jovens contribuam plenamente para a economia e para a sociedade.
Os dados da avaliação mostram ainda avanços importantes na formalização do trabalho. Entre os participantes que estão empregados, a maioria atua com carteira assinada, demonstrando que políticas e iniciativas voltadas à inclusão
produtiva podem gerar ocupações mais estáveis e com melhores perspectivas de desenvolvimento profissional.
Outro aspecto relevante é a educação. A maior parte dos jovens envolvidos segue estudando, e uma parcela significativa já está no ensino superior. Isso reforça a relação direta entre oportunidades de aprendizado e melhores condições de empregabilidade, produtividade e geração de renda no longo prazo.
Nesse processo, as empresas ocupam posição estratégica. Ao olhar para as juventudes como uma potência, e não apenas como um público a ser apoiado, o setor privado contribui para criar soluções que beneficiam toda a cadeia produtiva. Os resultados que observamos mostram que, quando oportunidades são criadas de forma intencional, os ganhos são coletivos. Mais renda, mais empregabilidade e mais acesso à educação significam também mais desenvolvimento, mais competitividade e uma sociedade menos desigual.
(*) Gabriella Bighetti é CEO da United Way Brasil.
