Espírito empreendedor renasce entre brasileiros que querem recomeçar

Nelson Andreatta (*)

Nos últimos anos, temos visto o surgimento de centenas de milhares de startups e plataformas digitais no Brasil e no mundo.

O caso da Uber, que ganhou espaço por oferecer um serviço mais barato e conveniente em relação aos táxis – estimulando a inclusão de milhões de motoristas autônomos em sua base, marcou a aceleração de um novo modelo de negócio chamado de “uberização”. Esse modelo enfrenta uma dura curva de aprendizado, além da resistência, no início, desafio natural enfrentado por dez entre dez empreendedores.

São exemplos assim que ajudam a mostrar mais claramente o espírito e instinto empreendedor, que permaneceu adormecido e até mesmo demonizado em boa parte da sociedade, castrado por décadas ou centenas de anos mundo afora. Ao longo do tempo, a sociedade e o mercado de trabalho foram se desenvolvendo – com uma ou outra exceção – do escravagismo ao modelo industrial de linha de produção, popularizado pelo fordismo e taylorismo, sistemas criados no início do século XIX – ou seja, dois séculos atrás. Defendido pela maioria dos grandes executivos e corporações até pouquíssimo tempo, é bom lembrar.

Com o avanço da tecnologia e da pandemia do novo coronavírus, as empresas, os governos e indivíduos têm sido pressionados a pensar qual mundo queremos construir. Não existe uma receita pronta, mas uma coisa é certa: o sistema de trabalho e educação ocidental não se sustentam mais. Desde pequenos, nas escolas, somos estimulados a decorar conceitos e fórmulas, com quase nenhum impulso para refletir, pensar e criar.

É assim que vamos crescendo, tanto na iniciativa privada quanto no funcionalismo público, replicando modelos pré-estabelecidos, ou seja, perpetuando problemas crônicos existentes na estrutura. Diversas pesquisas feitas por consultorias de renome e organizações, como Accenture, McKinsey e Fórum Econômico Mundial, apontam profundas mudanças no futuro do trabalho. Um estudo da McKinsey prevê que entre 400 e 800 milhões de empregos em todo o mundo poderão ser automatizados até 2030.

Somente no Brasil 30 milhões de empregos podem desaparecer nos próximos sete anos, aponta estudo divulgado em 2018 pelo Ipea. Não sabemos ao certo quando, mas o formato atual de emprego formal que conhecemos hoje, não vai mais existir. Alguns países já discutem a criação de novos modelos econômicos. Na Holanda, por exemplo, 170 pesquisadores escreveram um manifesto que propõe, entre outras ações, uma estrutura econômica baseada em redistribuição e no decrescimento, deixando de focar apenas no crescimento do PIB.

A tendência é que o empreendedorismo, que ficou adormecido por tanto tempo, se acelere nos próximos anos e décadas. Isso porque o pensamento empreendedor emancipa o indivíduo, ou seja, fortalece a independência em relação ao emprego formal e ao Estado. Em outras palavras, garante autonomia e protagonismo. A evolução de novas plataformas e startups representa uma espécie de transição, a maioria ainda distante do ideal, mas é um caminho para um novo modelo que possa auxiliar na redução de riscos ao empreender.

O Covid-19 acelerou mudanças que já estavam em curso. Historicamente, sempre fomos seres instintivos e emocionais. O empreendedorismo está presente em nossas veias, desde os ancestrais que eram empreendedores natos ao combinar a atenção ao contexto e às presas que poderiam aparecer de repente. Mas também precisavam sobreviver, então, descobriram novos métodos de geração de riqueza ou renda, que estão em evolução há um milênio ou milênios. Não custa lembrar que a Revolução Industrial tem pouco mais de 200 anos.

O futuro pós-pandemia não está traçado, porém dá para enxergar dois possíveis caminhos. Pode ser que o coronavírus impulsione, de fato, todas essas transformações da sociedade e do trabalho, tornando os indivíduos mais independentes, fortalecendo o empreendedorismo. Mas existe, claro, a solução mais fácil e perigosa, ao meu ver: governos e grandes corporações saírem ainda mais fortes da crise – e continuarem a subjugar o ser humano e estimular ao invés da colaboração.

(*) – Especialista em Gestão de Marketing e Branding com atuação nas áreas de inovação e desenvolvimento de negócios é fundador e CEO da Eats for You, marketplace de refeições caseiras.

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