Carla Carvalho (*)
O governo digital brasileiro avançou de forma expressiva nos últimos anos. A plataforma Gov.br já reúne 175 milhões de usuários cadastrados e viabiliza acesso a mais de 4.600 serviços federais digitalizados, além de milhares de serviços integrados em estados e municípios. No cenário internacional, o Brasil também aparece entre os países de maior maturidade em governo digital, segundo indicadores como o GovTech Maturity Index, do Banco Mundial.
Esses números mostram uma conquista importante. A porta de entrada do serviço público ficou mais digital, mais acessível e mais próxima do cidadão. Mas eles também abrem uma nova discussão: após digitalizar o acesso, como garantir que a operação por trás desses serviços seja igualmente resiliente, integrada e segura?
Essa talvez seja uma das perguntas centrais para a próxima etapa do governo digital. Quando um serviço público migra para o ambiente digital, ele não muda apenas de canal. Ele passa a depender de uma cadeia mais ampla de sistemas, dados, redes, infraestrutura, segurança, integrações e parceiros tecnológicos. Se uma dessas camadas falha, o impacto não é apenas técnico. Ele pode afetar atendimento, gestão, transparência e confiança pública.
O desafio, portanto, deixou de estar apenas na criação de portais, aplicativos ou canais digitais. Ele está também na capacidade de sustentar a retaguarda que faz esses serviços funcionarem. E é nesse ponto que a discussão sobre continuidade operacional ganha relevância.
Levantamentos sobre governança e gestão de tecnologia no setor público mostram que ainda há espaço importante de amadurecimento na estruturação interna dos órgãos, especialmente em temas como planos de continuidade, automação de processos, integração de sistemas e gestão de riscos. Em outras palavras, o avanço da interface digital com o cidadão precisa ser acompanhado por uma evolução equivalente no back-office público.
Por isso, continuidade operacional precisa ocupar um lugar mais estratégico na agenda de transformação digital do Estado. Não se trata apenas de evitar indisponibilidades, mas de garantir que processos essenciais continuem funcionando mesmo durante modernizações, migrações, mudanças de plataforma, aumento de demanda ou situações de risco.
Resolver esse desafio exige uma visão menos fragmentada da tecnologia pública. Não se trata apenas de trocar sistemas ou migrar ambientes. Trata-se de entender processos, mapear dependências, modernizar infraestrutura, proteger dados, integrar plataformas e conduzir mudanças sem interromper serviços essenciais.
Por isso, a escolha dos parceiros tecnológicos passa a ter um peso gradativo. Em ambientes públicos, a capacidade de entrega não pode ser medida apenas pela solução apresentada, mas pela maturidade de quem consegue diagnosticar cenários, antecipar riscos, coordenar diferentes fornecedores e sustentar a operação antes, durante e depois da transformação.
Essa é uma diferença importante. Projetos de governo digital não acontecem em ambientes ideais. Eles convivem com sistemas legados, restrições orçamentárias, exigências regulatórias, múltiplos contratos, dados sensíveis e serviços que não podem simplesmente parar enquanto a modernização acontece. Nesse contexto, experiência técnica é fundamental, mas não suficiente. É preciso visão consultiva, governança, método e capacidade de integração.
O fornecedor preparado para essa nova etapa não é apenas quem implementa tecnologia. É quem ajuda o órgão público a organizar a jornada: compreender o ponto de partida, priorizar o que precisa mudar, reduzir riscos de transição, conectar camadas de infraestrutura, segurança, dados e aplicações, e criar condições para a inovação ser sustentada no tempo.
Experiências internacionais acompanhadas pela Axians em administrações municipais, como iniciativas conduzidas na Alemanha, ajudam a ilustrar esse ponto. A digitalização pública mais consistente não começa necessariamente pelos canais mais visíveis ao cidadão. Muitas vezes, ela avança pela modernização de processos internos, como gestão financeira, pedidos, aprovações, documentos e fluxos administrativos. Embora menos exposta, essa base operacional é o que permite ao setor público ganhar eficiência, rastreabilidade e previsibilidade no longo prazo.
Esse aprendizado é importante porque a transformação digital pública não se sustenta apenas em grandes anúncios. Ela depende de continuidade, disciplina operacional e evolução gradual. Muitas vezes, o maior ganho não está em substituir tudo de uma vez, mas em organizar melhor o que já existe, integrar ambientes antes desconectados, reduzir retrabalho, dar visibilidade aos processos e preparar a infraestrutura para novas camadas de inovação.
Nesse sentido, tecnologias como cloud, cibersegurança, dados, automação e inteligência artificial só entregam todo o seu potencial quando fazem parte de uma estratégia integrada. Isoladas, podem até resolver problemas específicos. Conectadas a uma visão de continuidade operacional, ajudam a criar ambientes mais resilientes, seguros e preparados para evoluir.
O próximo salto do governo digital dependerá menos da digitalização como vitrine e mais da digitalização como sustentação. Serviços públicos digitais precisam ser Simples para quem utiliza, mas robustos para quem opera. Para isso, tecnologia, governança, segurança e continuidade não podem caminhar separadas. No fim, a maturidade do governo digital não estará apenas em colocar mais serviços online, mas em garantir que eles permaneçam disponíveis, confiáveis e capazes de evoluir.
(*) Managing Director da Axians no Brasil.
